Crónica queniana 


A luz de Nakuru é como a luz de Lisboa. Densa. 

O tuktuk que me transporta vai navegando por entre os carros parados. O trânsito é caótico. Carros que são quase achados arqueológicos, todo-o-terreno de última geração, ciclotáxis, boda-boda. 

Nalgumas zonas do Quénia, no inverno, quando a chuva é feita de cordões grosso, o preço dos boda-boda ( Mototáxis) triplica porque os motoristas não apenas o conduzem até ao destino, mas estão atentos aos crocodilos.

Espero por eles. Não que eles se tenham atrasado, eu é que cheguei demasiado cedo. Fui despertada pelos babuínos numa gritaria. Algo a que os quenianos não ligam, mas que os meus ouvidos europeus escutem com outro deslumbre.

Passo os olhos pelas notícias. Daqui a pouco terei à minha os que estão dentro das fotografias de jornal  e que têm histórias que só conseguimos sentir por aproximação e das quais arranhamos a superfície. 

Estou em Kiti, local desencantado de Nakuru. Num quarto, se pode chamar quarto a uma divisão numa casa precária, sentam-se dez jovens sul-sudaneses. Jogam damas para entreter as horas. A parede está pintada de verde e nela a ilusão possível: posters de futebol. Numa corda estendem-se uniformes escolares,

Sou a única mulher, a única branca ali. Recebem-me como “mãe grande” e desfiam, em voz baixa, compassada, tramas de vida tão iguais como contas de um rosário.

Entro na vida deles como quem transpõe a porta de um café conhecido, daqueles onde nos demoramos e onde conhecemos cada rosto. “Somos acessíveis e também de uma inacessibilidade irredutível. Cada um é uma palavra e ao mesmo tempo um segredo.”. Palavras de José Tolentino de Mendonça. 

De todas as histórias, de todos os segredos , conto a de Eliajah Akech (em Dinka significa órfão). O menino terá 9, 10 anos, ninguém sabe. Assim como ninguém sabe o seu nome verdadeiro. Quando crescer  quer soldado como o “irmão” Daniel. “Gosto do uniforme”, diz em suahili ( não fala Dinka e já vão perceber porwuê). Daniel encontrou-o na estrada,  entre os corpos dos pais mortos. Tímido menino fala  num sussurro e repete o que a mãe adoptiva, a mãe do soldado de 19 anos que o trouxe ao colo na fuga a pé do Sudão do Sul para o Quénia, repete como um mantra: “School is mother and father”. 

Esta criança, com nome de profeta,  teve a sorte, no infortúnio, de encontrar um lar e sobretudo amor. Não se lembra dos pais, a única memória que tem é que a mãe gostava de cantar. É para ela e para a mãe adoptiva que é o melhor aluno da turma. E tem uma voz tão doce quando canta. 

O amor é singularíssimo mune-se de uma desconcertante simplicidade de meios.


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