Cidade de espinhos

 

4256Para os trabalhadores humanitários o campo de refugiados de Dadaab é uma “crise humanitária”, para o governo queniano o “ovo da serpente do terrorismo”, para os media ocidentais uma  “zona no-go”, para os seus habitantes a cidade de espinhos no deserto inóspito é o mais próximo do que podem chamar casa.

Venham comigo. Quero levar-vos um local que não existe em nenhum atlas oficial do Quénia. E o mundo como se sabe divide-se entre os que estão no mapa e aqueles que não estão. Não é esquecimento, não é acaso. É violência ou desamparo.

Não sei se há desamparo maior, solidão mais abismal do que chegar à fronteira de um país que não é o nosso. E pedir refúgio. Palavra tão nobre e tão maltratada.

Que faz de alguém um refugiado? A primeira das respostas tem quase sempre uma banda sonora de estrondos, assobiar de balas e cheiro de medo, de roupa colada ao corpo pelo suor. Falemos de Guled antes de falar de Dadaab, ou porque não é possível falar de Dadaab sem falar de tantos Guled.

Guled era um rapaz esguio, órfão de pais, vivendo numa Mogadíscio reduzida a ruínas por uma guerra interminável. Com ele viviam a irmã e um grupo de outras crianças e jovens despojados da sorte. Orfãos que se abraçavam quando os morteiros caiam demasiado próximo, como se aquele gesto fosse um escudo invisível com a poderosa força do amor, ou para os mais cínicos, do nu desejo de sobrevivência. Passavam os dias iguais no seu desalento quando cinco homens armados, vestidos de negro, entraram na escola e “recrutaram” Guled. Passou a ser uma das 2 mil crianças raptadas pela al-Shabaab nesse ano na Somália. Destino? Criança soldado. Missão? Aplicar a sharia. Comerciantes que vendiam na hora errada? Espancar. Fumadores? Apagar o cigarro na cara ou nas mãos. Poupo-vos à descrição de outras atrocidades. Certa tarde Guleb, então com 16 anos, encontrou duas adolescentes a fazer compras durante o período  que devia ser dedicado à oração. Chicoteou-às . Engoliu as lágrimas ao ver quer uma delas era a jovem com quem havia casado em segredo semanas antes. Guled e a mulher Maryam fugiram para Dadaab, o maior campo de refugiados do mundo.

Dadaab significa “rochoso, local duro”  e é uma descrição exacta para este lugar no meio de um deserto inóspito. Uma comunidade sem lei. Pense em algo muito perigoso e quando é muito perigoso em Dadaab pense no inimaginável. “Estamos no Quénia: podemos violar-te se quisermos”, avisa um polícia. E apesar destes perigos reais as mulheres têm mais escolhas, maior hipótese de escapar à mutilação genital feminina ou a casamentos forçados, são mais livres no Inferno de Dadaab do que na Somália. Perverso?

O campo de refugiados de Dadaab no norte do Quénia é uma cidade do tamanho de Frankfurt, trocando os arranha-céus  por tendas  da ONU, montadas em rectângulos de areia e dispostas em blocos numerados, entre as tendas espaço suficiente para que as “ruas” sejam  patrulhados  por carros da polícia. A geografia de um campo de refugiados é feita de duas coisas: visibilidade e controlo, os mesmos princípios que regem uma prisão

Viver aqui é um pouco como viver no planeta Marte, diz Ben Rawlence, autor de “City of Thorns”, livro que devia ser de leitura obrigatória nas chancelarias europeias. “Dadaab é um local trágico e fascinante”. Os refugiados não podem olhar para o passado feito de traumas de guerra, não podem olhar para o futuro porque este não oferece a mais ténue esperança e o presente é feito de ração seca das Nações Unidas e horas de espera ao sol tórrido para obter água.

Os números exactos não são conhecidos, entre 350 mil a 600 mil pessoas vivem no campo de refugiados, na sua maioria somalis. O campo “provisório” existe há 25 anos mas o governo queniano pensa em desmantela-lo, culpa os refugiados e a al-Schabaab pelos ataques terroristas no Quénia. O plano não deverá avançar. Não por motivos humanitários, mas porque o campo dá emprego a milhares de quenianos que trabalham nas agências, no saneamento, na educação e saúde, como seguranças ou polícias. O comércio ilegal em torno de Dadaab perfaz trinta milhões de dólares por ano.

Dadaab não é um caso isolado. Há campos  semelhantes na fronteira entre a Tailândia  e Myanmar, no Sudão, no Chade, em Darfur. São uma espécie de arquipélagos de desesperados. Mantidos onde não querem estar e sem praia onde acostar.

Muitos dos náufragos no Mediterrâneo vinham de Dadaab. Podemos esquece-los, eles podem nem estar no mapa, mas lembram-nos a sua existência. Se no mapa de quem manda no mundo , de quem manda no Quénia eram vazio, um nada, então decidiram mapear-se. Perverso? Não. Humano no seu abismo mais profundo: o da indiferença.


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