O anel devolvido 

Ao amanhecer cessou o vento e o Atlântico tingia-se de reluzente azul prata. Pouso nos seixos o olhar. Deslumbro-me com a leve eternidade da espuma. Do inclemente embate da massa de água contra as rochas resulta o rendilhado perfeito da espuma. As pequenas e as grandes felicidades são assim. Únicas, poéticas e fugazes. E pelas quais vale a pena esperar. Há momentos que convidam ao silêncio. 

O café está fechado e o Clube Naval do Funchal não despertou ainda do longo sono do domingo. 
Muito perto do meu olhar, nalgum lugar sob a superfície das águas estaria ele.
Convoco os meus fantasmas como navegante que olha para o fundo de um copo procurando as palavras. Alinhavo a história do meu anel e do seu sortilégio.

Certos objectos são uma homenagem à vida. Assim era aquele anel de ouro, de friso grego, comprado em Atenas, numa reverência ao meu nome.
Durante décadas anel e eu fomos inseparáveis, éramos rocha e lapa, até ao dia em que, por razões que agora não interessam, decidi não usar mais anéis. 
Diz o Luís Sepúlveda que “as mãos são a única parte do corpo que não mente. Calor, suor, tremor e força. Essa é a linguagem das mãos”. Nada há de mais poderoso do que unir os dedos com alguém, dois sangues que procuram um único caudal. Não, as mãos não mentem.
Depositei o anel anos a fio, ao lado de uma aristocrática pulseira de âmbar e prata, numa caixa de sândalo perfumado.
Este Verão resgatei-o da sua terrível solidão de adorno inútil e devolvi-o ao dedo anelar esquerdo. Mergulhei com ele. Extenuada, porque nadar contra a corrente cansa, não notei que se me havia escapado do dedo. Dele não restava mais do que a sensação de falta do metal sólido contra a carne e as memórias. 
Conformei-me com a perda e imaginei-o cruzando as águas na barriga de algum peixe, negando o tempo explorando o mundo debruçado para lá das janelas. 
Passada exactamente uma semana sobre a minha perda, eis que este domingo, um mergulhador com uma perplexidade divertida me entrega o anel. ” É este? Brilhava sobre uma rocha, bem perto do cais”. Tanta razão tem Borges: “sabemos pouco das leis que regem o acaso”. O mar devolveu-me o anel que me fora oferecido por alguém que já morreu. Acredito que sem medo, porque fez da vida o que o coração lhe ditara. 
Há coisas que só começam a fazer sentido quando nos comovemos. E que um raio me parta se exagerei esta história.

PS – Há muitas testemunhas do meu relato no Clube Naval do Funchal e os cépticos terão de ficar com a dúvida. A realidade consegue ser  mais extraordinária do que a ficção. 


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s