Sonho de uma noite de Verão 


Amigos, a vitória sobre a França fez nascer um penacho em cada cabeça e esporas em cada calcanhar. O português anda por aí com ares de combatente da Guerra Peninsular. O vento da história sopra-nos na cara. Somos uma nação de 10 milhões de almas erectas como lanças. Mas venhamos e convenhamos o triunfo sobre os gauleses merece toda essa euforia.
Aliás, este campeonato europeu dá um argumento para um belíssimo filme onde o futebol é um frívolo pretexto. A modéstia do resultado na final não obscurece uma multiplicidade de coisas: determinação, resistência, perversidade, paixão e drama, muito drama. Hello Hollywood, anyone out there?  
Daqui a uns anos a pergunta clássica será “onde estavas a 10 de Julho de 2016?”. Sendo uma mulher de fé – anos de sportinguismo cinzelaram-na tornando-a inabalável – decidi ver a final acompanhada. Ou melhor, muito bem acompanhada por cerca de dez mil pessoas no Parque de Santa Catarina no Funchal. Arrepiante. Queria assistir à consagração de Ronaldo no Stade de France na ilha que o viu nascer. Dores partilhadas doem menos e alegrias valem mais. Armada com a camisola da selecção, cachecol, bandeira canto a plenos pulmões aos heróis do mar e do estádio “que hão-de levar-te à vitória”. Ao meu lado a minha filha adolescente limpa discretamente uma lágrima. 
O começo de qualquer partida de futebol é uma janela aberta para o infinito. E a essência do futebol, o que o torna fascinante é a possibilidade. Aos oito minutos o capitão português cai, derrubado pela perfídia de Payet e no estádio ecoam assobios dos adeptos franceses. Muitíssimas vezes Ronaldo é estátua e, muitíssimas vezes, é vaia. O destino dos divinos. 
Atrás de mim um pré-adolescente diz, com o delicioso sotaque madeirense, “se ganharmos este jogo faço uma tatuagem do Ronaldo. Estou disposto a tudo”. Ronaldo volta ao campo. E os franceses repetem os assobios infames. Talvez devessem aprender alguma coisa com os fans irlandeses ou islandeses. Ronaldo sai de campo banhado em lágrimas. Aplausos em pé no Funchal, o Stade de France levanta-se como mar encrespado. 
“Vamos embora, não aguento mais”, suplica-me a minha filha. “Não”, respondi,”nunca se abandona uma batalha a meio. Podemos perdê-la, porém nunca por falta de comparência”. Olha-me como se lhe dissesse que ia saltar de wingsuit do Cabo Girão, mas está habituada à loucura da mãe. 
No campo as caravelas portuguesas enfrentam mar adverso. Rui Patrício de “grandíssima estatura” na defesa inspira aos franceses mais temor que o gigante Adamastor, guardião do Cabo da Boa Esperança. A equipa, movida a raiva, tece o mais que humano feito e aos cento e dez minutos um filho da Guiné, meu país natal e meu chão, remata arrastando consigo uma nação espalhada pelos cinco continentes. Éder marcou contra os franceses num verdadeiro milagre do futebol. Vejam vocês a ironia da vida e do futebol, talvez o mais contestado jogador do onze transforma-se num triunfador. 
No Parque de Santa Catarina e em qualquer pedaço de terra onde bata um coração português grita-se num uníssono canto de esperança goloooooooooooooooooo. A Matilde filma, coloca fotografias no Instagram, atualiza o status no Facebook, recebe os parabéns das amigas alemãs, polacas, russas e não se volta a sentar. Nem ela, nem ninguém naquele Parque. Os minutos passam dolorosamente. Está quase, está quase, está quase. Prrrrrrrrrrrriiiiiiiiiiiiiiiii. Campeões, campeões, campeões nós somos campeões. 

Quero lá saber de técnica, de futebol bonito. A vitória foi perfeita e irretocável. O futebol português conquistou em Paris o maior feito da sua história. Éder, o patinho feio foi o herói de uma equipa guerreira que derrotou a anfitriã e favorita França no prolongamento. Cristiano Ronaldo, o capitão-treinador-motivador- adepto sofredor, ergueu o troféu por nós. Concretizou um sonho mais que merecido e fez-nos aportar no porto de todas as esperanças. 
Esperei 44 anos pelo sonho desta noite de Verão. E por aquele momento de poder demonstrar à minha filha que por mais táctico, ensaiado, treinado que esteja o futebol ele é como a vida, nunca está livre do imponderável, nem da poesia. A seguir fomos buzinar para a Avenida do Mar que a “gente trabalha o ano inteiro por um momento de sonho”. 
PS- Obrigada ao Nelson Rodrigues o melhor cronista de futebol de todos os tempos e que me ensinou a amar este desporto. 


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