Palavras, cebolas e amor

Ontem numa conversa um amigo citou “Palavras e Sangue”, Giovanni  Papini. Perguntava-me ele, em jeito de provocação, se e sabia qual era a citação literária que mais irrita as mulheres. Segundo o Rui é “gosto dos cães que mordem e das mulheres sem literatura”. A frase foi um rastilho. De imediato me lembrei do meu pai que na cozinha me ensinava palavras, tantas que cheguei à escola a saber ler.  Terá sido dos momentos da minha vida em mais perto terei estado do meu pai, homem que habitava o silêncio e deixou o querer viver na Guiné. E lembrei-me de cebolas. Somos sobreposições de camadas finas. Alguns deixam-se penetrar pelas palavras que são como faca em manga madura, outras entricheiram-se. Mergulham numa solidão abissal e na literatura, como na vida, por vezes quem se afoga é o outro.

“Palavras e Sangue” é uma obra cruel. Como é cruel, cínico, o egoísmo dos que não gostam de si mesmos, e por não o conseguirem, ou por escolhem não o fazer, não permitem que lhes toquem a alma.

“Eu era para ela o Universo, ao passo que ela, para mim, não passava de uma curiosidade. O seu amor, porém, chegou a ser tão grande que o meu não pode durar. Tenho tanto desprezo por mim próprio que não posso adaptar-me ao papel de ídolo. Irritava-me aquela apaixonada veneração que a todo o momento sentia em torno de mim. Saber que cada um dos meus actos era espiado, recordado, engrandecido, com todos os seus pormenores: que cada palavra minha era escutada, anotada, repetida, comentada e que toda a minha vida era, para outro ser, um espectáculo, ainda que fosse de glória, humilhava-me. Quero existir para mim, viver para mim; não quero que ninguém entre na minha vida”.

Acordei a pensar na pergunta que o Rui me fez: “o que torna alguém inesquecível?”. Sensibilidade, inteligência, entrega e sentido de humor? Sim, mas não apenas. Literatura e coragem. Gosto de pessoas que mordem e com literatura. Tanta que lhes permita entender que o amor também é quando se tem todos os motivos para desistir de alguém não fazer. Ou é sobretudo isso. O Rui diria: és ingénua. Talvez. Mas como escreve o Vinicius “Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu…”


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