Estrangeiros do nosso ontem ou crónica que (quase) ninguém lê

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Na Praça Roncalli, em frente à Catedral de Colónia, foi colocado um barco. Confiscado pela marinha maltesa e comprado pelo Cardeal, Rainer Maria Woelki. A bordo dele, no meio momento em que foi apresado no mar Mediterrâneo, estavam entre 80 a 100 pessoas que haviam largado de areias líbias.

O Cardeal fez dele altar há poucos dias. “ Quem deixa seres humanos afogarem-se nas ondas do Mediterrâneo, permite que Deus se afogue. Todos os dias. Milhares de vezes”. Não é preciso ser-se cristão ou acreditar num deus qualquer para entender a espessura mensagem. A humanidade, a compaixão, afunda-se. Mas a morte não os cala, lembra-nos a vida que quer viver. Contra o desespero, contra a guerra. Desde o ano 2000 até ao final de 2015, 23 mil pessoas afogaram-se no Mediterrâneo. Para que não fossem esquecidos nas 230 igrejas da diocese de Colónia (de Wuppertal a Bona), faz exactamente um ano, os sinos tocaram 23 mil vezes ao longo de 12 horas.

Este alerta de consciências faz-me sempre pensar naquilo que faz de um ser humano um humano. O que é que nos torna naquilo que somos? É a capacidade de contarmos a nossa história, de tecermos a nossa narrativa? Sim. Todavia não apenas isso. O que nos humaniza é, não sermos uma ilha, na frase que se tornou um lugar-comum, o vermos o nosso reflexo nos olhos do outro. Porque só somos no outro. E o outro só é em nós.

Notei há muito que os textos menos lidos do blog são sobre refugiados. O que no início me entristecia e chocava. Hoje entendo-o. Há muitos que fingem não vê-los no quotidiano (o que explica alguns comentários sobre os refugiados que “desapareceram” de Mangualde), não vê-los nas muitas camadas do mundo.

Como escrevo sobre aquilo que considero relevante, e poucas coisas existem que considere mais relevantes que a dignidade humana, continuarei a escrever sobre eles. Assim será sempre uma escolha o não ler e será uma decisão assumir que eles não existem.

Para eles não há como voltar. São estrangeiros do seu ontem. Todos nós somos estrangeiros de alguma forma.


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