Presa, predadores e as « selvas » europeias

13524321_10204587516006264_8155599419255796455_n

Violadas, forçadas a prostituir-se, a roubar, a trabalhar para traficantes de pessoas. O ser-se criança e refugiado tem muitas cores, quase todas feias. Retrato da selva no país do Euro. Retrato da Europa no século XXI.

Cinco euros.  O que num café dos Campos Elíseos não seria suficiente para pagar um éclair e um cafe au lait basta para comprar um corpo jovem. Uma menina afegã, etíope, curda ou síria nos bares das “selvas” francesas.

Vemos com demasiada frequência nas televisões bulldozers e forças policiais a desmantelar acampamentos. Alguns congratulam-se com as decisões “firmes” dos políticos franceses, vendo nessa política repressiva e na legislação penal que prevê pena de prisão para quem ajude um clandestino, uma forma de travar a chegada dos desesperados. Como se algo parasse quem ambiciona uma vida em paz ou quem tem humanidade para calçar os sapatos do outro.

É vagamente sabido que grande parte das mulheres refugiadas é obrigada a prostituir-se, mal toca em solo europeu.  E também conhecido que a essas mulheres, vítimas de perseguição e abuso sexual, não é reconhecido o direito de asilo em quase nenhum pais europeu. Talvez , como escreveu Paulo Moura, “se saiba que há bebés que foram concebidos com o exclusivo propósito de serem passaportes para que as mães possam estabelecer-se na Europa. E que depois são abandonados”.

Três sociólogos franceses, a pedido da UNICEF, passaram quatro meses nos campos de refugiados no litoral norte de França. Em Calais (Pas-de-Calais), Grand-Synthe e outras cinco pequenas “selvas”. Estudando o como os menores não acompanhados chegam até França e o como sobrevivem.

“Para se conseguir um lugar em Norrent-Fontes (Pas-de-Calais ou Steenvoorde no departamento do norte [dois campos  mais pequenos  e mais “ humanos” do que Calais]  taxa de entrada é de 500 euros”, conta Alexandre Le Cleve, um dos autores do relatório da UNICEF.  Em Calais, alguns rapazes afegãos têm de pagar 100 euros como taxa de entrada para obter um lugar e a proteção de um contrabandista.

Os traficantes montaram um sistema que permite aos menores sem dinheiro obter um lugar num campo e procurar passar para o Reino Unido onde alguns têm família. O preço a pagar? Favores sexuais e prostituição. O relatório  revela que as raparigas menores são enviadas para das  “selvas”  para Paris, para se prostituirem, sendo na semana seguinte trocadas por carne fresca.

Os rapazes menores, maioritários, não tem uma sorte diferente: são carregadores de água, lavam roupa, guardam o lugar no chuveiro para outras pessoas, à noite, como fantasmas  espreitam camiões e  ajudam refugiados a entrar neles. Tenho um amigo motorista internacional de uma empresa portuguesa – procurem-no no Facebook por El Quê – que vem denunciado esta situação e a dor funda que é ter de arrancar dentro do veículo quem dele fez navio para o sonho, o sonho de uma outra vida. Os miúdos, ajudantes de contrabandistas, fazem-no para ganhar dinheiro para comprar a “passagem” para outro lado da Mancha onde têm  tantas vezes família.

Recentemente o Le Monde escrevia que a “França não respeita a Convenção dos direitos das crianças”. Acrescento só: há crianças a enlouquecer nas “selvas” europeias. Isto não é uma metáfora. É literal.

 

“A intolerância para com as pessoas que vêm de outros sítios, para os estrangeiros, para aqueles que são diferentes. A intolerância é alimentada por alguns políticos em busca da popularidade e por diversos media procurando uma maior audiência. O crescimento do populismo conduziu a uma confusão sistemática e intencional na opinião pública, misturando problemas de segurança, terrorismo, fluxos migratórios, refugiados e asilo. Promover um debate racional significa primeiramente confrontar este procedimento irracional e populista. Isso pode ser atingido promovendo a educação, a tolerância, a razão e os valores democráticos. Preservar o asilo neste clima significa enfrentar a noção de que os refugiados e os solicitantes de asilo sejam agentes de insegurança ou terrorismo, em vez de vítimas. Infelizmente, há muitas situações hoje onde o conceito do asilo é confundido com o terrorismo. O asilo é e deve permanecer um dogma central da democracia.”

António Guterres, no Prefácio de Passaporte para o Céu.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s