Ser português

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As minhas filhas depois de fazerem uma asneira qualquer, do género autorizar a cadela preta a sentar-se no meu sofá branco – onde é que eu estava com a cabeça?Onde? – quando confrontadas com as clássicas perguntas: “o que fizeste?” ou “o que se passou?” respondem com um invariável  e nihilista “nada”. Provavelmente noutras casas Nietzsche também goza de igual popularidade.

Não sou só eu que procuro respostas para os disparates da descendência. Há muito em procure por respostas, aliás este era o tema da crónica antes de ter visto as nódoas de lama no sofá.

Numa época em que (temos a ilusão que) está tudo ao alcance de um click  muitos desenvolveram a paixão pela autognose. Isto é, tentarmos saber quem somos. O problema é que depois não fazemos grande ideia do que fazer com isso. Os portugueses adoram “estudos” e de tempos a tempo lá é publicado um sobre isto de ser “português”.

Talvez o maior defeito português seja o de procurar respostas, o querer ver-se ao espelho, mas não fazer nada com essa informação. Como um paciente que se recusa a tomar a medicação assim  é o português com a crítica. Somos muito sensíveis à inércia. Até porque vencê-la implica mudarmo-nos a nós e não ao outro.

Dois dos nossos mais conceituados pensadores, Eduardo Lourenço (“ O Labirinto da Saudade”) e José Gil (“Hoje – O Medo de Existir”)  debruçaram-se sobre este “ser português”. Declinando-o em três palavras. “Saudade” (a nossa alma melancólica, louco triste que se abriga no peito de cada um de nós), “medo” (sobretudo o de falhar, que leva à não inscrição, e à inveja, benigna e tantas vezes verrinosa, dos que ousam) e “atraso” (o negativo é notícia embora por vezes seja apenas um fragmento da realidade, e a obsessão pela comparação com o outro).

Sem fazer nenhum estudo e usando o senso comum parece-me que os portugueses são uma espécie de gnu. Eu explico. Lembram-se dos documentários da National Geographic sobre a vida selvagem? Sigam-me. Primeiro plano: os leões a perseguir uma manada que atravessa o rio. Segundo plano: uma leoa atira-se à jugular. Plano final: a presa sucumbe aos predadores (talvez a mais velha ou a mais frágil ou a que teve mais azar), porém  e esta é a moral da fábula: o resto da manada prossegue pela savana. Acredito que muitas vezes o gnu, sabe melhor do que os predadores, que a vida é uma selva, que cada leão tem a sua gazela, ou vice versa.

Como optimista encartada recuso-me a entrar na ciclotimia: achar que somos magníficos à segunda-feira ou que somos abaixo de cão na quarta-feira (a maior vítima desta mania lusa  tem sido o Cristiano Ronaldo, que já devia estar no divã do psiquiatra se ligasse alguma coisa ao que se diz acerca dele).

Pergunto-me muitas vezes se serei portuguesa? Muitos de vós farão o mesmo. Não me considero nem mais nem menos infeliz que outros povos – pensem no inverno sueco e cortem os pulsos -, não leio menos que outros europeus – aliás, o meu consumo efectivo de livros está bem acima da média estatística, o de muitos portugueses que rodeiam também -, consumo tanto futebol como um alemão ou um italiano e ouço ópera.  Gosto de fado, mas recuso o fatalismo. Gosto de praia, sem areia e nem filas. Pertenço a uma minoria, a dos sportinguistas. Reciclo o lixo, sou pontual, escrevo cartas e postais e acredito na vida para além da Internet (se estudos forem verídicos são poucos os portugueses que o fazem).

Acompanhem-me agora  por terreno minado. Há países tão bonitos ou mais bonitos  que o nosso? Há, o que em nada retira em deslumbramento às Flores, ou ao promontório de Sagres, de fascínio ao Marão e de encanto a Lisboa.

Há países onde se come tão bem como em Portugal? Embora a resposta seja difícil é afirmativa. O que não diminui  uma cozinha feita de afectos, especiarias, com a açúcar e amor como diriam os brasileiros. A lista das maravilhas portuguesas é extensa e nela cabe o mar de altivo porte, a luz perfeita e clara e os olhos escuros e sedutores dos nossos homens

Deixemo-nos de comparações, aprendamos a viver com a crítica, a ousar, a gostar de nós e sobretudo a dependurar o  “nada” como resposta.

(E agora vou ali entregar uma escova à descendência porque errar é humano, corrigir os erros é nobre)


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