Crónica do Maputo – Do trombil aos finais felizes 

Acordei grata por a vida oferecer tão auspiciosos contrastes. Quem goste de recantos de ninguém e histórias deslumbra-se no Maputo, que é uma espécie de transfusão lírica no sistema circulatório mais céptico. E essas histórias vão mais além do que o quarto com cama de dossel que coube ou os magníficos crepúsculos da plácida esplanada do Polana.

Há de facto diversos níveis de realidade e diversos graus de percepção da mesma. Hoje apetece-me falar de esperança, um sentimento tão moçambicano como as espantosas flores mudas (flores que despontam a cada canto da cidade sem que os laurentinos lhe conheçam o nome).

Conto-vos duas histórias. Ambas têm como personagem principal a esperança. Chama-se Carlos Cossa, tem 31 anos. Quando o pai morreu, tinha ele 15 anos, veio do Choókwé para o Maputo assegurar a sobrevivência da família.

 Começou por vender ovos cozidos na berma da estrada, mais tarde seriam corta-unhas e peúgas. Dormiu no chão, viveu na rua. 

Tentou emprego certo em empresas, mas só tinha a 7 classe. Foi rejeitado. Decidiu voltar à escola. De dia vendedor informal, à noite estudante. Com a ajuda de outros vendedores do dumba-nengue completou o ensino secundário e em 2014 entrou para a Faculdade de Educação na Eduardo Mondlane. Dedica dois dias por semana ao estudo: vai à biblioteca e faz investigação. Nos restantes vende capas de telemóvel e as noites são ocupadas pelas aulas. Sonha ser professor, “mas não me limitarei a isso. Ganho dinheiro de forma honesta, cuido da minha mãe e da minha esposa. Sinto-me um homem feliz”.

Na América Latina as editoras “cartoneras” existem há mais de uma década e garantem a democratização do acesso ao livro e a divulgação de obras de novos autores. O tema é da tal forma fascinante que universidades como a de Harvard ou a de Madrid o tem estudado.
Em Moçambique existia desde 2010 a Kutsemba ( que em changana significa esperança ) Cartão e agora surgiu a Livaningo Cartão d’arte. Ambas sem fins lucrativos e o propósito único de dar a ler. E quem lê olha o mundo como se fosse a ser estreado.Por menos de 3 euros foi-me apresentado um “poeta de plantão”. Que melhor metáfora para o olhar ?

Num dos mais belos relatos de viagem que li sobre Moçambique, “O Mundo não tem pressa”, escrito por António Cabrita, a dada altura descreve-se uma viagem de chapa (carrinha que faz transporte colectivo sempre em excesso de lotação) e   desaconselhada a mulungos (brancos) sensíveis. “É normalmente o exemplo que dou na aula para explicar a ubiquidade de Deus: um passageiro [de chapa] que no termo da sua viagem foi afinal todos os passageiros [quando o chapa para todos descem, saem os que têm a sair e volta-se ao interior por ordem aleatória] estando em todos os lugares ao mesmo tempo”. 

Os meus dias aqui no Maputo são uma espécie de viagem de chapa. Entram e saem passageiros sob a forma de histórias, algumas de perda de inocência, outras feitas de ruínas com alma como a das casas coloniais em franco declínio que cederão em breve lugar à construção vertical, outras e as de mais gosto feitas de pessoas ( o meu vendedor que reserva os jornais para a “Mamã” e nota as minhas ausências, a do pedinte sorridente em cadeira de rodas de imaginação mirabolante, a do meu condutor de txopela que ambiciona ser empresário turístico e tantas, tantas outras de lutas e sonhos).

Os mapas são sempre abstractos. Falta-lhes o sedimento cultural, antropológico, linguístico e capacidade de dobrar a impossibilidade. Dessa capacidade nascem histórias felizes, lendas e mitos.

PS – Porque falei em trombil? Porque é uma das palavras com a qual por razões insondáveis embirro. Tropecei nela numa conversa de café e causou-me logo irritações subcutâneas.

O elefante é um ser magestoso. Testa alta, presas imponentes, memória de cronista. Merece melhor descrição para facie do que o horrível vocábulo trombil.

 


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