Crónica de Maputo

O dia começou como de costume: o quarto a pegar fogo com a luz do sol. Não sei porque insisto em deixar uma frincha das cortinas, espessas, aberta. Ou sei, é por intermédio desse cumprimento matinal do sol, mais quente que uma colorida gele (pano de adornar a cabeça) que vejo a África mais de perto. Há um magnífico provérbio africano que diz “mesmo na noite mais escura a mão encontra sempre a boca”, em África e neste país que gosto de amar que é Moçambique, aprendi a ter a noção de mim e face à imensidão – ou às imensidões, a da paisagem, a do sofrimento, a da fome – aprendi a olhar e antecipei orfandades. 

As minhas estadias no Maputo são sempre uma espécie de contrabando entre dois territórios: o “meu mundo” – de europeia, portuguesa, em situação confortável – e o “mundo deles”. Crónica do meu mundo. Desperta, percorri a pé a Avenida Julius Nyerere até à pastelaria Nautilus. “Mamã aqui estão os seus jornais”. É um ritual e o vendedor sabe exactamente o quero. Peço um café e meia torrada. Na televisão a RTP Internacional transmite as cerimónias do 10 de Junho. Maputo leva-me a Lisboa e a esse dia extraordinário onde se celebra o poeta que dá nome à nossa língua, o homem que cantou a grandeza de um país e de um Império e que recebeu como o agradecimento o morrer sozinho na mais abjecta pobreza. 

Não lembro onde li mas alguém escreveu que os portugueses inventaram a saudade sem lhe entenderem a fina ironia. “É fraqueza entre ovelhas ser leão”. 

Deslizo os olhos da televisão para as letras dos jornais moçambicanos. Um novo rapto no Maputo, na Sommerschield, a vítima é um branco, “talvez estrangeiro”, murmura-se. Noticia-se a fome. Crónica do mundo deles. “Hoje não comemos nada. Acordamos e ficamos aqui sentados. Por várias vezes já passamos um dia inteiro sem comer nada. As crianças choram e o que tentamos fazer é caçar ratazanas. Mas não conseguimos nada. Às 12 horas vou à escola e volto de tarde para dormir sem comer nada”. O Marcos tem 13 anos e é apenas uma das tantas vozes e rostos da fome em Moçambique. 
Conto-vos outra história, real, passada aqui no Maputo. Irá ser construída uma ponte que liga Maputo à Catembe. Para tal 300 famílias que viviam no bairro da Malanga foram “reassentadas”, eufemismo para expropriadas e enviadas para um qualquer lugar à escolha dos políticos. Estas famílias eram pobres mas tinham acesso à escola, mercado e hospital. Agora foram enviadas para Mahoche, onde existe apenas um tanque de água de mil litros que nem para as necessidades básicas é suficiente, o “chapa” (carrinha que faz transporte público) mais próximo fica a dois quilómetros, os transportes para o hospital são feitos de txova (carrinha de carga), as crianças não têm escola. 
“Estamos atrás do sol”. Só mesmo a alma do povo moçambicano consegue pôr poesia na mais elementar violação dos direitos humanos em nome de valor civilizacional que é o “progresso”.

Invertendo a lógica do senso comum, diz o Mia Couto, que é “a árvore que segura o chão”. “Confirmo isso no quotidiano do meu trabalho: a forma como os solos são varridos depois de cortarem as árvores. E o que começou como poesia acaba se impondo como ciência “. Pois também é o futuro que escreve o passado e Moçambique tem muito passado pela frente. 
Hoje fui à Matola, questões de trabalho, que não interessam aqui. O meu taxista zambeziano traz nome de bicicleta: Bianchi. O pai era manaito de um colono português em Quelimane – a cidade das bicicletas e dos sportinguistas, mas isso é assunto para outra crónica- e o português teria uma bicicleta desta marca. Parámos na berma da nacional para beber uma Coca Cola numa “mercearia” chamada “Rápida e Fatal”, talvez numa alusão à estrada ou à vida, e falámos de futebol. Ao ver a reacção dos moçambicanos ao Campeonato Europeu apercebo-me de quanto o futebol é das poucas festas a nível planetário, em que todos fazem parte da mesma tribo que precisa de celebrar. Resulta a dimensão actual do futebol de falta de outras dimensões? Ou será porque o futebol baralhou as cartas do baralho humano e esbateu as raças ?
Fecho os olhos, enquanto regresso a Maputo e recordo-me de coisas tão inesperadas como o meu guarda Augusto de uma doçura extraordinária homem do PAIGC, que me levava ao colo para o mato, traindo Portugal e o meu pai militar que lhe pagava o salário, e traçando uma fronteira invisível à porta da nossa casa, fronteira que salvou a vida à minha mãe. O “meu mundo” sempre se cruzou com o “mundo deles”.
Por hoje é tudo de Maputo, cidade puzzle, num continente puzzle onde a história muda muitas vezes de direcção e os finais estão em aberto. 
   
   


2 thoughts on “Crónica de Maputo

  1. Notavel texto, que me arranca memorias ah flor da pele desta Africa que vive no mais profundo de nos. Entende-la assim como aqui ficou escrito, deixa- me num desespero brando de nao haver futuro para um povo inteiro sem recurso.

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