O meu dia dava um filme…

Para início de conversa não acredito que haja nenhuma mulher santa. Nem a sua mãe querido leitor ou a sua filha. Pode ficar de cabelos em pé e parar de pirragear. Somos todas um bocado doidas e santas q.b.. Este é aliás o título de um divertidíssimo livro da Martha Medeiros. Admito que há umas mais loucas que outras. Euzinha por exemplo. Além de ser dramática, apaixonada, chata, a minha insanidade chama-se, fazendo coro com a Martha, Vontade de Viver até à Última Gota.

Entre o sobreviver e o viver há um abismo e poucos dão o salto. E afinal é tão simples como o sambinha de Vinicius “vai, vai, vai amar…/vai, vai, vai…chorar/ vai, vai, vai…sofrer”. Tudo o que precisamos é viver e não deixar para mais tarde, ou que o nosso medo nos paralise. Já vão perceber porque falo de medo.

O dia começou com o sol a exibir-se grandioso e uma corrida de sete quilómetros nas margens do Reno. Seguiu-se o ritual de tentar acordar a adolescente que me habita a casa e arrastá-la até à piscina (na segunda-feira a professora de educação física vai avaliar os mergulhos das alunas). “Bom dia princesa”. Resposta ensonada (de alguém que dormiu mais de dez horas): “És mesmo minha mãe biológica ? Como pode alguém ter tanta energia de madrugada? “. Ohmmmmm. 

Antes de ter um fricote concedo-lhe o quarto de hora académico e vou buscar o correio (uma das coisas boas das manhãs de sábado é ter tempo para a correspondência e jornal de fim de semana). Entre as cartas destaca-se uma que me deixou particularmente, não particularmente não é a palavra certa, que me deixou a transbordar de felicidade. Por dois motivos: a forma, é manuscrita, e o autor. Não é todos os dias que se recebe um agradecimento do Presidente da República (e mais não conto que há coisas que são como os meus chocolates da Godiva, guardam-se para se saborear na intimidade).

Envolta numa nuvem de boa disposição, a caminho da piscina partilhei com carro com o Justin Timberlake, o Adel Tawil -“Und ich schreib SMS, doch ich schick sie nicht weg/Ob du online bist hab ich so oft gechecked”, laaalaaaa – e o Anselmo Ralph. Ohmmmm take dois. 

Horas de piscina depois, “como assim já vamos embora?”, comprámos morangos na beira da estrada e fizemos um Snapchat. Mãe que é Cool tem que se manter up to date.

No acordo tácito que há entre mim e a teen sábado que é sábado implica um passeio pelo centro de Bona e a compra de livros. 

Estávamos nós distraídas em frente a  uma montra (este é o momento em que nos filmes  se ouve a música que faz antecipar um twist, uma viragem dramática na história) quando sinto uma presença demasiado perto de mim. Viro-me e vejo um homem com a mão dentro da minha mala e um segundo a proteger-lhe o movimento, escondendo-o. Não tive tempo sequer para pensar. Reagi. Dobrei-lhe o pulso com força, segurando-o pelo cotovelo e em segundos estava no chão enquanto o “amigo” se eclipsou à velocidade de um cometa. A polícia que estava por sorte por perto tomou “conta da ocorrência”. Contei isto no Facebook e muitos, bem intencionados, disseram tu és doida. Sou. Varrida. 

Eu explico no espaço de 3 anos esta foi a 4 tentativa de assalto em Bona. Na primeira partiram-me o vidro traseiro do carro, na segunda roubaram-me o iPad dentro da mala, na terceira de novo o carro. Neste mesmo espaço de tempo, e por causa do meu envolvimento na defesa de refugiados recebi intimidações e até ameaças de morte. Não sendo medrosa, não sou também inconsciente e por isso tomei algumas medidas para reforçar a minha segurança pessoal. Recuso-me a ter medo.

Em tempos alguém de que gosto mesmo muito disse-me “Lisboa não é Cabul”, frase que se tornou numa private joke entre nós. A vida pode não ser sempre feijão com arroz (e ovo e linguiça e farofa; é melhor parar por aqui para não babar o iPad), mas somos nós que lhe damos o tempero.

“Bona não é Cabul” é o lema do dia de hoje e para o pôr à prova acabei o dia na gelataria com as duas filhotas a acharem que tem a Mami mais desvairada do universo (e a única que as amigas delas seguem no Facebook e no Instragram) e a minha neta a morder-me o nariz (ainda vai saltar de pára-quedas com a avó). 

Que seria a vida sem inquietude ? 


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