Castelo de cartas da normalidade

Quer que eu lhe fale de mim? Sou o menos indicado para o fazer. Sabe porquê? Habito o silêncio e receio as palavras, as que se desfazem em espuma numa conversa banal, as perfeitas que escorrem pela pele como gotas de suor depois do êxtase, as implacáveis como a Glock 19. Na minha profissão é-se muito desconfiado.

Demasiado atarefado a lamber as feridas das minhas desilusões – “são inevitáveis e muito menores do que as alegrias”, era o mantra dela – precisei de tempo para perder o medo das palavras. Há uma curta distância, uma linha fina que se interpõe entre o herói e o traidor. Ou o cobarde.

Lia-me. Ofereceu-me um postal escrito numa letra redonda, onde apontava o espelho a si, às mulheres: “porque lhes é tão difícil entender que os homens usam todas as palavras que lhes permitam garantir a rendição da mulher –excepto, em princípio, a palavra « amor» , que tem uma seta a apontar para uma gaiola?”. Recusou-se a aceitar que era um predador com olhos verdes, de mel. E dos piores, dos que abdicam do real para perderem horas em chats no Facebook onde as emoções são de plástico.  “O amor é face à vida o maior lenitivo”, dizia.

“É uma arte que exige lentidão e contemplar o detalhe. Acredita nos meus olhos, se não acreditas na imparcialidade do que digo”, tão inteligente, tão forte. Exigia-me as palavras que não fui capaz de pronunciar. Demorei tempo sim a acreditar na sua paixão, que abandonaria a sua vida, o seu outro país por mim. Ela, a correspondente de guerra bem sucedida, saltando de continente em continente, e eu ?

Dê-me um Gin com Campari, condizente com a raiva e a amargura que sinto. Ela era precisa como um tiro, “o excesso de cobardes é o verdadeiro drama deste mundo”. Nove milímetros a perfurarem-me a pele. Nunca poupou os fracos, desculpava-os, mas estava convencida que a fraqueza era uma escolha.

Entendida nos segredos da alma, tinha o dom de radiografar as pessoas e enchia páginas com histórias dos abismos da guerra, do cheiro rude da morte, de amores intensos, poderosos, de sonhos por cumprir e de coragem. Nunca temeu o ridículo, nem o confronto. Enfadava-se com “as aparências” e era de uma impoluta sinceridade. O que escreveu ficará para além dela e mudou a vida de algumas pessoas.

Quer que me apresente? O meu nome é Miguel. O apelido não interessa. “Para que serve o apelido? E que é isso de mundos diferentes? Desculpas de pessoas que organizam os seus desenlaces, por meandros que ficção alguma suportaria” disse-me tantas vezes. Mas estou a adiantar-me. Dê-me mais um gin.

Precisava de mulher. De me perder num corpo. Desse sucedâneo do amor que é foder. O desejo é omnipresente num divorciado, camufla a solidão. Sexo sem compromisso e um modo elegante de desaparecer. “Sou complicado”, disse sempre às mulheres, “não me suportarias mais que uns meses”.

Ela deixou-se embarcar no jogo de sedução. Não é minha intenção fazer um minucioso relato do correr dos dias. Sei que era uma noite amena de Janeiro em Lisboa, que o céu estava limpo e viam-se bem as estrelas, muitas. Disse-me que para ver estrelas assim só talvez na Namíbia. Coloquei-lhe o braço sobre o ombro e nesse abraço entramos no quarto. Desabamos na cama um sobre o outro, rindo, quase envergonhados como adolescentes. Entrei no seu corpo, inebriei-me com o cheiro e o toque da sua pele e deixei de saber quem sou. Soube naquele instante que a amava, mas não estava preparado para as intempéries do amor. Sou desconfiado. Na minha profissão é-se muito desconfiado, defensivo. E via os olhares que se prendiam nela, despertava olhares de intenso desejo. Tinha um halo erótico, uma força que tinha uma existência física e não era só corpo, era inteligência.

Ela era feita de gestos cheios de sossegos, “meu doce amor impossível”, e de um olhar esplendoroso, insolente. Mulher complexa, camaloeónica, meiga e indomável, sonhadora e lúcida. E como gostava de discutir, de indagar tudo.

Na minha profissão cumpre-se. “Prontidão e lealdade”. Transfigurava-me na presença dela, desavisado. Nunca discuti tanto com uma mulher. “Não sejas inseguro, os polícias dão sustento ao imaginário, mais do que os gestores”.

Desenvolveu a doença do ciúme, com tal afinco que encontrou o que procurava.“Traste”. Foram corpos de ocasião, não tinham a marca distintiva dela, a mulher que me fazia rir, que não me  permitiu cancelar sonhos, que exigia dela e dos outros ser desesperadamente feliz.

Sou um tipo que tem algumas obsessões. Uma delas é a ordem. Talvez a maior delas. Não gosto que me desassosseguem. As minhas gavetas são organizadas geometricamente, não consigo ver nada fora do sítio. Ela desdenhava da “chatice incomensurável da procura da perfeição suprema”. Chamava-me “fado do lar”.

Enlouquecia-me. Que outra se lembraria de fazer entregar na porta de armas um ramo de rosas vermelhas, uma por cada mês em que me iluminou as noites. Rosas entregues por um homem vestido de coração vermelho. Está a imaginar a reacção dos camaradas?

Persuadiu-se de que me podia ensinar a ser feliz. A velha história do Pigmalião.

Vingava-me das fúrias dela – amou-me provavelmente demais – e das palavras caústicas, com o silêncio. E tantas vezes me arrependi desse silêncio que desenhou ausência. Eu, “o polícia triste”, como me chamava, refugiei-me no castelo de cartas da normalidade. Bom seria que se demorasse o que nos dá prazer e passasse rápida a dor.

Pensei que a pudesse ultrapassar, como dizem os meus amigos. Faço anos daqui a umas semanas e não estou certo que queira passar esse dia sozinho. Volvido tanto tempo, não ergo mais estátua ao deus da descrença, o amor empurra duas almas uma para a outra. Estou preparado a o dizer, o meu desejo está exactamente no mesmo sítio, que a amo desde a primeira noite. Confiará ela em mim?

 


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