A Domadora pelos olhos do Zink

Helena puxando pela língua
O que é a crónica? Boa pergunta. Vamos reformulá-la? Pode a crónica ser literária? Sim, pode. A prova? Eça, Ramalho, José Gomes Ferreira, Luiz Pacheco, Ferreira Fernandes, Miguel Esteves Cardoso, Lobo Antunes. Estes últimos, aliás, sofrem de uma maldição: muitas pessoas preferem-lhes as crónicas à obra mais séria, os romances. Se no caso do MEC não se trata de uma injustiça, já no de Lobo Antunes é um bocadinho maldade – embora não tão grave como dizer que o melhor Saramago é o dos Diários de Lanzarote ou que, de Vergílio Ferreira, as memórias ainda são o que de mais acertado escreveu. Mas o que fazem Miguel Torga ou Manuel António Pina, seja em contos, poemas ou diarística senão crónica? E Agustina, essa persistente cartógrafa de um certo Portugal? E, no fundo, o que é a boa literatura – sim, mesmo a que toma forma de romance – senão crónica? 

Estamos condenados a ser cronistas dos nossos dias. A verdade é que a crónica é uma ponte entre o quotidiano e a ficção. Crónicas haverá inteiramente dedicadas ao comentário de circunstância – política, nomeadamente – mas outras buscam, no rame-rame da circunstância, o humano para lá da circunstância. 

Há anos que a Helena Ferro Gouveia delicia os leitores do seu blog com as crónicas que lá decide colocar. A literatura começa por ser uma escolha. A do assunto a tratar. O assunto que nos chama a atenção ou, melhor, nos puxa pela língua. Em seguida, de entre os textos que escrevemos, qual o que decidimos publicar. Em terceiro, dos textos que publicamos, qual o que preferimos destacar. Ocasionalmente, nem sempre, apenas ocasionalmente, a Helena pergunta a alguns amigos: «Leste o que escrevi sobre esse assunto? Se não leste, faz o favor de ler.» E isto não é presunção, ou, a sê-lo, é apenas a presunção inerente a todo aquele que arrisca escrever coisas públicas: acreditar que o que temos para dizer pode iluminar um poucochito quem lê. 

E o que a Helena escreve pode fazê-lo, iluminar-nos. A voz é risonha, clara, atenta e, se já se encontrou na escrita jornalística, está agora aos poucos a encontrar-se na escrita literária. Só que essa voz, que mantém uma estranha inocência da qual falarei abaixo, tem atrás um cabedal de experiências que o comum dos mortais não tem. A Helena é uma salta-pocinhas, e saltapocinha pelo mundo acumulando milhas no cartão, que já deve ser platina, e levando um modelo alemão de jornalismo e liberdade com um travo de luso-tropical improviso e desenrascanço. Já conheci jornalistas de acção e terreno, e muitos e muitas lembram os nossos anglófilos de serviço, aos quais duas noites em Oxford os deixam churchillados para o resto da vida, com os tiques da Cultura Superior que mimam: sobranceria, ar vivido, fleuma de plástico, muita pompa & circunstância. Viram, amiúde, monumentos ambulantes a si próprios ou próprias, bustos mumificados em vida. Não a Helena: sempre fresca como uma alface, embora já avó, sempre com o seu ar de camponesa prestes a corar, embora há décadas aterrada no centro da Europa comunitária, sempre disponível para a vida, embora tivesse razões de sobra e legitimidade para começar a encostar às boxes. Uma força da natureza, a Helena. Uma verdadeira Ferro de Gouveia. E Helena, a sê-lo, não o será de Troia mas de Esparta, ou parente afastada das lendárias Amazonas. 

Para terminar, a história que acima prometi:  

Há muitos anos fui a uma cidade do norte e, com um amigo desenhador, desaguámos num jantar muito sofisticado. Todas as mulheres nesse jantar eram belas, quase o que se pode chamar trophy wifes, mas uma destacava-se, e eu não percebia porquê, pois (como diria Júlio Dantas) talvez fosse até a menos bela. Só que tinha um rosto extraordinário – e olhos grandes e um sorriso simpático – embora eu não percebesse extraordinário em quê. O certo é que não conseguia deixar de olhar para ela. 

Terminado o jantar, eu e o António Jorge voltámos ao quarto e eu contei-lhe o que se tinha passado comigo: como não tinha conseguido deixar de olhar para aquela mulher, sem perceber ao certo o quê. Até parecia menos perfeita que as outras, provavelmente porque ao contrário das outras ainda não teria feito uma plástica ao nariz e…

O Jorge disse: Reparaste nos olhos?

Eu encolhi os ombros: Sim, mas e daí?

O Jorge suspirou, pegou numa folha de papel e desenhou dois ovos lado a lado e depois, em baixo, outros dois ovos. E dentro dos ovos de cima – que percebi serem olhos de bonecos de desenhos animados – o Jorge desenhou a íris em cima e, nos de baixo, a íris em baixo.

E explicou: com a idade, as pessoas tendem a ter olhos fatigados, e é isso que nos dá um ar sábio, fleumático ou frio ou vivido, o branco dos olhos fica para baixo. Nos olhos inocentes das crianças, a íris está em baixo, o mundo é ainda deslumbramento. 

Para as crianças tudo é aventura. Se ficção ou realidade, pouco importa. O que importa é reinar. 

 A crónica é, talvez, a melhor ponte entre a ficção e a realidade. Talvez seja o princípio da literatura. Pelo menos, é bonito pensar assim. 

Para começar, a crónica é ficção de si mesmo. Todos nós já vivemos muitas luas, muitos invernos, muitas primaveras. 

E para a Helena Ferro de Gouveia tudo é aventura: até lançar um livro de crónicas em Lisboa num hotel de charme numa tarde de Maio, mês de Maria – e da abelha Maia.  
Lisboa, 4 de Maio de 2016

Rui Zink


2 thoughts on “A Domadora pelos olhos do Zink

  1. Helena, gostei muito de saber da publicação do seu livro.
    Li com todo o agrado os textos, da Helena Araújo e este do Rui Zink.
    Palavras elogiosas e bem merecidas para mais esta sua aventura. Da minha parte, que sou um apreciador dos seus textos, acho que este livro é mais do que merecido. Desejo-lhe as melhores felicitações e votos de sucesso, com um beijinho🙂

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