Da morte 


A vida é como navegar. Até se pode saber de cor as constelações e tirar azimutes, conhecer os ventos favoráveis, as correntes profundas, o recorte da costa, porém o mar esse permanece para sempre imperscrutável, imprevisível. Tudo o que nos resta como marinheiros é adaptar-nos e tentar tornar a viagem inesquecível. Ou afogar-nos. Nem sempre a escolha é fácil e por vezes nem é nossa. Mão amiga fez-me chegar um livro. É uma crónica de viagem. Da mais difícil delas. “Não é a ideia de desconhecido que assusta: é a ideia de que não haja desconhecido; apenas o fim”. Com serenidade e sobriedade a jornalista Susana Moreira Marques apresenta-nos Paula, Rui, João, Maria, Lurdes, Sara e Elisa. Pessoas que sabem que vão morrer e os seus familiares. Apresenta-nós também os cuidadores, enfermeiros, médicos, assistentes sociais, que restituem a quem vai morrer dignidade. “O enfermeiro faz-lhe a barba para que se mantenha digno, apesar do pijama, das fraldas, da baba”. 
O livro-reportagem “Agora e na hora da nossa morte” coloca-nos perante o abismo da nossa finitude, perante o medo, a solidão a cada um de nós está condenado no final da linha, mas também é um testemunho de amor. Visceral. De forças que se convocam para tornar o fim suportável para os que partem e para os que ficam. 

” Enquanto ia lendo os nomes nas campas tinha como banda sonora os gritos de uma mãe, e pensava como éramos felizes por ninguém da família ter ficado ali enterrado. ‘Filha, a mãe tem que te deixar, filha a mãe tem que partir’. A mulher era arrastada em braços para fora do cemitério e eu percebia como é trágico deixar os mortos para trás, deixá-los sós”. 

O livro é de uma beleza poética e cruel embora a autora escreva que a morte pouco tem de literário. “Camas articuladas, fraldas, dosagens de morfina, pomadas para escoriações, soro, tubos, agulhas- a doença traz problemas práticos para resolver e a morte é principalmente um processo físico. A morte tem pouco de literário”.
Pergunta-se a autora o que pensa alguém que sabe que vai morrer? Nas satisfações da vida se as houve ? Nas suas vitórias e derrotas ? No perdão e arrependimento ? Ou no desejo de continuar mais um bocadinho, só mais um bocadinho de vida? 
Das muitas reflexões que este livro me suscitou partilho duas, as que mais me inquietam. 
Como ultrapassar o medo de encarar um rosto amigo ou o rosto de um familiar cujo olhar roga por alívio e que no momento seguinte se pode turbar de ódio como se aquilo que mais desejasse fosse trocar connosco de destino (quem já esteve numa guerra, quem perdeu camaradas ou amigos sabe do que falo) ? 

Fechamo-nos no egoísmo como os que dizem “não suporto hospitais” , negamos o consolo? Não basta por vezes uma mão no ombro, ou um roçar de dedos? Um gesto de piedade?

A segunda prende-se com as palavras. Mais do que fim, o não retorno, assusta-me as palavras que podem ficar por dizer. O “gosto de ti”, o “foste importante”, o “amo-te”, o “obrigada pelos momentos em que me fizeste sorrir” e sobretudo e antes de tudo o “desculpa”. 
É verdade que as palavras são raras, preciosas, não devem ser desperdiçadas, mas também é verdade que são como um diamante, só depois de facetadas demonstram a sua verdadeira beleza e poder. São redentoras. 

PS – Num momento em que se debate a eutanásia este é um livro para ler. Sem julgamentos morais.


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