O Domadora pelos olhos da Helena (a outra) 

Quem tem amigos tem tudo. Quem tem amigos que escrevem e moderam bem, é privilegiado.

Partilho a apresentação do Domadora de Camalões, feita em Berlim pela Helena Araújo (tradutora, autora de documentários, melómana e blogger)

“Quando li o título “Domadora de Camaleões” pela primeira vez, pensei “esta mulher é louca!”
Pensei, mas nunca o diria perante um público tão selecto como este, e muito menos perante a autora. Portanto, desarrisquem, que eu vou começar de novo:

Quando li o título “Domadora de Camaleões” pela primeira vez, pensei “esta mulher gosta de desafios impossíveis!”

Só alguém que gosta de tentar o impossível se lembraria de tentar domar um camaleão. Não sei se estão a ver a cena: uma pessoa diz “deita”, o bicho começa a deitar-se, fica da cor do chão, é preciso pôr uma folha vermelha por trás dele para verificar se está sentado, deitado ou a dar a pata, e entretanto descobrimos que estamos prestes a espetar a guloseima de prémio na sua orelha.

Domar camaleões não é para qualquer um.

Mas a Helena Ferro de Gouveia não é qualquer um – e fui descobrindo isso ao longo do tempo. A Helena é aquela pessoa que, se há uma ameaça de bomba na estação central de Bona, em vez de se meter no primeiro táxi que a leve a toda a velocidade para debaixo da cama, pega no seu cartão de jornalista e vai para a estação. É aquela pessoa que nos aparece sentada numa carrinha de caixa aberta rodeada de leões, ou a saltar de paraquedas, ou em exercícios de tiro. A pessoa que ajuda a criar rádios locais na Amazónia e jornais regionais na Guiné. Que sabe como reagir em caso de perigo – desde terramoto a rapto. Que aparece na televisão portuguesa a dar informações sobre a Alemanha, e responde às perguntas com opiniões ponderadas. Que decide correr a meia maratona, e a corre. Que no meio de todos os afazeres e responsabilidades arranja tempo para participar num projecto de integração de refugiados. Ou que se vê obrigada a embarcar para uma missão de altíssimo risco no Sudão no momento em que a sua filha entra em trabalho de parto. A vida da Helena Ferro de Gouveia dava um novo tipo de série de televisão, misturando road movies e aviões, acção e aventura, The Office, Friends, Desperate Housewives, James Bond e The Waltons (good night mom, good night Matilde, good night Joana, good night Mafalda, good night amor da minha vida, good night todos e ainda um good night meu querido i-phone).

Se a autobiografia do Pablo Neruda se chama “confesso de vivi”, uma autobiografia da Helena Ferro de Gouveia teria de se chamar “confesso que agarrei a vida às vezes pela mão, outras pela cintura, ou até pelos cabelos, e a trouxe comigo para lhe ensinar o que é ela pode ser”.

No prefácio a este livro, a Helena escreve “o presente livro é uma escolha de olhares e uma tentativa de viver por extenso.”

Ora bem: como de costume, ninguém me pergunta nada. O que se encontra neste livro são sinais de uma tentativa – conseguida! – de viver por intenso.

É o que encontramos nas páginas deste livro:

1. As viagens – ao Brasil, à Bolívia, ao Egipto, à Eslovénia, à Guiné-Bissau, à Malásia, aos Estados Unidos, ao Sudão – são oportunidade para nos fazer entrar nos países com os olhos da jornalista, da intelectual, da mulher de coração enorme, e dos escritores. Os seus relatos de viagens nunca são uma listagem sem graça de lugares e comidas. Em meia dúzia de frases compõe-se a aguarela nítida, rica de cores e cheia de humanidade. Quase dá vontade de não ir a esse país, por temer que a nossa experiência pessoal fique aquém do relatado nestas linhas.
Como tudo neste livro, as viagens são também um caminho para a reflexão sobre si própria – como a reflexão sobre a pipoca e o piruá – e para a sua circunstância de portuguesa – como no texto da página 13 sobre futebol: “havia um Mueller no meio do caminho”
Das viagens passamos para os países que são muito cá da nossa casa: um conjunto de apontamentos ora divertidos ora muito informativos sobre a Alemanha, um olhar cheio de ternura sobre Portugal.
As filhas não podiam faltar – e este capítulo podia ser em cinco livros, que não me cansava de os ler todos. A filha de nove anos que está a passar férias em Portugal e manda um sms: “Mãe, tenho uma pergunta: Deus existe mesmo?”
Ou que quer ser esterilizada, para não contribuir para o excesso de população mundial. Ou que dispara, ainda antes do pequeno-almoço: “mãe, tu tens vida sexual?”

Ou a entrevista para ser aceite no liceu católico (pág. 41, imperdível!).

Outro capítulo muito especial é aquele em que fala das mulheres, das muitas faces da mulher. A mulher emancipada e a mulher vítima de tradições cruéis. A condição de mãe-trabalhadora na Alemanha. A mulher que deseja e sabe o que quer.
Continua: Comida – Crónicas avulsas que são reflexões – livros comentados como um diálogo da sua vida com o que lê – Contos – Poemas – Confissões
Leio o livro, e concluo que esta domadora de camaleões não gosta de desafios impossíveis. Ela é mesmo louca!

Goza daquela loucura tão rara nos nossos dias de relatar sem máscaras o seu caminho de busca e as suas angústias, de encontrar alegria e sentido nas coisas pequenas (a que chama grandes!), de abraçar o mundo – dia a dia, lugar a lugar, pessoa a pessoa – com um coração enorme e aberto.
Desejo a todos que esta loucura seja contagiante, e que a leitura deste livro nos inspire para descobrir a forma e a beleza da nossa vida que, como um camaleão, tende a perder contornos e cor, misturada com os tons nem sempre brilhantes do quotidiano.”


5 thoughts on “O Domadora pelos olhos da Helena (a outra) 

    1. Conforme o prometido, aqui segue a lista das livrarias que até este momento já tem o livro “A Domadora de Camaleões”
      LIVRARIAS BERTRAND
      LIVRARIA 100ª PÁGINA
      PORTO EDITORA
      LIVRARIAS FNAC
      RG LIVREIROS
      VELHOTES
      LETRAS & LIVROS
      FONTE DAS LETRAS
      LIVRARIA HEMUS
      LIVRARIA ESCRIBA
      NAZARETH & FILHO
      PAPELARIA CLASSICA
      CULSETE
      LIVRARIA BOA LEITURA
      LIVROS & COMPANHIA
      AMERICANA
      LIVRARIAS LEYA
      LIVRARIA SOUSA & ALMEIDA
      BOOK HOUSE
      UNICEPE
      LIVRARIA MINHO
      LIVRARIA OSWALDO SÁ
      LIVRARIA BRACARA
      DISTOPIA
      TABACARIA FÉBUS
      LER DEVAGAR – ÓBIDOS
      PALAVRA DE VIAJANTE
      LER DEVAGAR – LISBOA
      CIRCULO DE LETRAS
      LIVRARIA LER
      CAIXA DOS LIVROS

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