Sobrevoando a Síria

Tudo é areia sem castelo? Divide-se o mundo em duas porções: os de lá e os de cá?Prólogo desta história: na vida tudo chega de súbito. Quando nos damos conta já aconteceu. Assim foi com o Tiago. Um convite, em 2011, e trocou Portugal pela Turquia, “sem saber nada do país”. Transcrevo uns capítulos da sua vida. Fez MedEvac (evacuação médica) em Ancara, Izmir e Gaziantep (no sudeste da Anatólia, no Curdistão turco a 120 quilómetros de Alepo).

O piloto “de cá” enfrentou os olhos órfãos dos que vivem “lá” nas traseiras da vida, nos lugares desmapeados do mundo. “Ao início, tudo me fazia confusão, com o passar do tempo, só os bebés é que mexiam comigo…Lembro-me de estar 90 dias a trabalhar seguidos, em que me deitava depois dos voos e acordava com um telefonema para ir voar…Resultado, Zolpidem e Zoloft para não quebrar”.
Ouvir este velho amigo é como contemplar com fascínio o Zambeze em suicida queda de mais de cem metros de altura. O que nos deslumbra na margem das Cataratas de Vitória (a quem os locais chamam “a nuvem que ruge”) não é o rio, mas a sua ausência. O que fascina nas histórias deste piloto é a ausência de chão que nos deixa indefesos. Nós, os de “cá”.
“Conta-me como é sobrevoar a Síria”, pedi-lhe. “Ora, só comparável a sobrevoar a Mauritânia à noite. Não se vê nada. Estão sem electricidade, logo, as luzes acabam na Zona de Adana até Sirnak. A fronteira é iluminada por candeeiros potentes para prevenir a passagem de emigrantes ilegais por via terrestre, bem como do pessoal do ISIS. Voar de Gaziantep para Van, ou para Sirnak à noite e ver durante hora e meia bombas a cair mesmo perto de nós, no que se assemelha a uma trovoada, só que os relâmpagos vem de baixo para cima…” 

“E medo Tiago, tiveste?”. “Digamos que fiz um ficheiro PDF para cada um dos meus filhos, outro para os meus pais e um para a Joana. Titulo dos mesmos: Abrir em caso de emergência”. É fácil adivinhar que continham a dor de todas as despedidas, a de quem desembarca da própria vida. 

“Situações complicadas? É difícil escolher, desde emergências por manutenção deficiente da aeronave, até teres de sobrevoar sítios a serem bombardeados e com combates terrestres em curso. Aproximações nocturnas de luzes apagadas para não sermos vistos. Perigo de fogo de RPG, voos em formação com drones dos aliados para aterrar no Iraque….Enfim…poderia continuar, mas olhando para trás só posso agradecer a quem me ajudou a ser o que sou hoje, como piloto e como pessoa, para ter sabido lidar com tudo isso”. 

“Fala-me dos campos de refugiados”. “Estive lá quando o Guterres e a Angelina Jolie lá foram, quando a Merkel lá foi.  Passei ‘n’ vezes na estrada lá ao lado. Só apetece chorar. Tendas todas alinhadas…desculpa a comparação, mas parece a II Guerra Mundial sem os crematórios…Aquela gente toda a fugir da morte e da fome, esses sim, sem dinheiro para vir para onde podem ter uma chance de viver…Aquilo não é viver, é sobreviver. Foi talvez visão mais horrível que tive em 4 anos de operação.

Nem Bagram, Kabul ou Bagdad, Erbil, entre outras me fizeram sentir assim. Nem mesmo o Djibouti ou a Etiópia se comparam”.

Escreveu o Mia Couto, “o bom do caminho é haver volta. Para ida sem volta basta o tempo”. O Tiago regressou em 2015 a Portugal. O piloto de “cá” teve escolha. E os de “lá”. Será tudo areia sem castelo ?

PS-Obrigada à pessoa linda que é o Tiago por me ter permitido partilhar um pouco da sua experiência.


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