“Que só o prato revele o melhor, o mais humano”

Gosto de cozinha, sobretudo de cozinha com histórias. Herdei vários livros de culinária, outros que comprei e evocam memórias afectivas de viagens ou de uma sobremesa memorável. Das muitas guloseimas que me fascinam há uma, simultaneamente despretensiosa e subtil, que faz as delícias das minhas manhãs: o croissant de manteiga. Estaladiço e a derreter-se na boca.

Como dizia o Vinicius se para viver um grande amor é preciso concentração a mesma dedicação  é necessária quando se misturam ingredientes com carinho, porque o cozinha não é mera química, é amor. É apreciar a vida. “E o que há de melhor que ir para cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica, e gostosa, farofinha, para o seu grande amor?”.

Recentemente, e porque procurava um livro de culinária para a minha colecção, “As receitas do Hotel Aviz” – hotel que foi um dos mais sumptuosos do mundo nos anos 50, não apenas pelo luxo do palacete de Picoas, mas também pelo seu serviço e requinte da sua cozinha – tropecei numa história sobre croissants.

Um dos hóspedes mais célebres do Hotel Aviz, por passaram Maria Callas, Evita Perón, os Duques de Windsor, foi o milionário arménio Calouste Gulbenkian que ali viveu de 1942 e ali morreria na suite D. Filipa, em 1955. O “rei”, como o baptizaram os empregados do Aviz, era exigente e um dos seus caprichos eram croissants. Dia após dia o chefe pasteleiro do Aviz, Joaquim Oliveira, entrava  mais cedo que o restante pessoal para preparar os dois croissants destinados ao pequeno-almoço do milionário. Um certo o tabuleiro foi devolvido à copa com croissants intactos. “ Não estavam bons” , terá dito Gulbenkian. O pasteleiro indignado queixou-se ao dono do Hotel que astutamente encontrou uma solução. Foram quatro os dias em que o forno do Aviz não esteve “em condições”  de fabricar os croissants do “rei”. Ao quinto dia Gulbenkian pediu ao pasteleiro que subisse à suite 52. Expressando-se em francês disse a Joaquim Oliveira que ele tinha o porte da nobreza e gratificou-o com 3 contos de reis, o era equivalente a 3 vezes o ordenado do pasteleiro.

Adivinhem o que aconteceu no dia seguinte.

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4 thoughts on ““Que só o prato revele o melhor, o mais humano”

  1. Da janela da minha sala de aula do meu longínquo terceiro ano (actual nono) viam-se os dois edifícios relativamente recentes, o Aviz, creio que sensivelmente no local do antigo Hotel Aviz, e o Hotel Sheraton. Eu tinha 12 anos, idade em que a nossa capacidade de absorção é inesgotável, e lembro-me de o professor de Desenho, senhor já idoso, ter contado que Calouste Gulbenkian tinha vivido no desaparecido hotel, pagando uma diária que deixava toda a gente boquiaberta por tão exorbitante… 300 escudos. Ou seja, um euro e meio.

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