O corte em capítulos 

Tenho uma mania: a de tentar dar importância ao desimportante e dar significado ao insignificante. Procuro que o olhar vá mais além e com devoção o melhor nos outros. Insurjo-me contra o egoísmo. 
Esta rebeldia ou inocência opcional tem-me permitido conhecer pessoas maravilhosas nos locais mais inesperados e não ficar amarga com as almas deformadas que se foram cruzando no caminho.

Lembro-me de um velhinho alemão, oficial do exército nazi ( já contei a história dele no blog), amargurado pelo peso da culpa que depositou em mim a sua história. Disse-me que no final da guerra, pegou num revólver o colocou dentro da boca, porém ao sentir o metal gelado contra o palato, faltou-lhe a coragem de pressionar o gatilho. Guardou a arma na gaveta da secretária durante toda a vida como uma espécie de sinete de um pretérito que não se quer e não consegue esquecer e o seu avesso, a possibilidade da vida. 
Nem toda a gente tem de escolher entre um tiro na cabeça e a vida, mas toda tem que ou pode fazer escolhas. 
Este longo prelúdio é para despedir de uma pessoa. Não lhe vou revelar a identidade, ela sabe quem é. Nem dar detalhes excessivos. Trata-se alguém de quem gosto mesmo muito, mas com quem o relacionamento se tornou impossível. Ou melhor, é preferível um ponto final na amizade, do que um corte em capítulos. Somos muito diferentes e essa pessoa meteu na cabeça que pertencemos a mundos diferentes, sendo o meu melhor que o dela. 

Demorei muito tempo a perceber (ou fechei os olhos) que estava a ser manipulada, que a minha suposta superioridade (“és mais inteligente”, “tens mais amigos”, “viajas mais”, “ganhas mais do que eu”) era usada, como os fios de uma marioneta, para me fazer sentir culpada (como se alguma coisa me tivesse algum dia caído do céu ou como se eu não me esforçasse acima, pode parecer presunçoso, mas ter sucesso dá trabalho, muito mesmo). No momento de pagar a conta, fosse um simples café ou um almoço, a pessoa já nem hesitava, cabia-me a mim. A pessoa em causa era lesta a pedir favores: “fazes-me isto”, “resolves-me aquilo” , esquecendo-se por vezes de um simples obrigado. Não ligo nada a bens materiais, porém que me priva do agradecimento  rouba-me o chão debaixo dos pés. 
Receber presentes de anos e Natal, claro. Retribuir com um simples telefonema ou um postal? “Mas, eu mandei-te uma mensagem no Facebook”. E isto são os episódios menos graves. O certo é que eu, que me tenho por sensata, cai numa amizade de uma só via e que me fez muito mal. Falei muitas vezes com a tal pessoa, tentei explicar o meu ponto de vista. O que sucedia ? Amuava como uma criança fazia-me ficar a pensar se estaria a ser exigente demais. Depois voltava, sorridente, como se nada fosse, exigindo mais e mais. 
 Sempre acreditei que a amizade é incondicional, mas aprendi à minha custa que há uma linha de água que a separa do oportunismo ou do tóxico.

Há uma amiga, a que devo muito, a Ivana, que escreveu um texto magnífico sobre os “mausoléus da amizade” , lugares onde depositamos pessoas que tiveram importância na nossa vida, mas que por um ou outro motivo deixam de fazer sentido nela ou a sua permanência nos faz mal e destrói o que pode ser incluído na categoria de memórias de tempos mais ou menos felizes. Pois esta amizade de que falei vai direitinha para o mausoléu, porque eu até tenho espírito de escuteira, mas não sou, nem quero ser santa. 

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One thought on “O corte em capítulos 

  1. Me deves muito!??!? Então somos afeitas as negociatas mais loucas… Eu te devo algumas das melhores experiências da minha vida. Até poderiamos “nos pagar” e ficar quites, mas prefiro ficar eternamente com o compromisso e financiar as pendencias em cafés, passeios e risadas! 😉 Tenho um amor enorme por ti! ❤ Beijinhos!

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