A carta

Nessa manhã e um tanto contra os meus hábitos de divorciado, acordei cedo, sem me espreguiçar ou agasalhar um mais o corpo ao conforto dos lençóis mornos. Ergui-me de um salto da cama de casal. O coração numa batida louca. Procurei a moldura na mesa de cabeceira. Contemplei-a. O pescoço elegante adornado de pérolas redondas tão bem fingidas. Uma fileira de dentes brancos alinhados num sorriso. O cabelo farto. Os olhos castanhos, profundos, contendo tantas palavras como a Biblioteca de Alexandria. E de súbito a ternura que continua a impregnar a minha memória dela. Não pode haver nada mais belo os seus braços estendidos, portos de águas serenas e gratificantes que fazem esquecer a tormenta ao largo. Mulher suave e bonançosa, mais que perfeita, menos que minha. 
Quando saí de casa era manhã aberta, primaveril, com uma luz subversiva que iluminava os contornos da cidade. O táxi desconjuntado deixou-me o aeroporto. Ao rolar a mala até ao check-in tudo em mim vibrava como a corda distendida de um arco prestes a lançar a sua flecha. Verifiquei o bolso interior do casaco. Palpei-a. Estava lá a carta. Três folhas manuscritas escritas febrilmente com citações dos poetas favoritos dela. Em suma tentando emendar erros antigos. Palavras vulcânicas, ardentes. 
Ignorei o alarido das vozes, a viagem garantia uma trégua na rotina quotidiana e da dor. Paro para reter a perfeição desses instantes sonhados, agora a serem vividos a bordo. Aperto o cinto. Descolamos. 

Não há nada de estranho nos meus modos previsíveis e serenos. Afinal sou professor. Homem de meia-idade, habituado a sofrer calado, a fingir que não vejo a barricada que me erguem os alunos, que não crêem que tenha seja o que for a ensinar-lhes. Para que serve a universidade e o saber, de que vale a reflexão se o que os espera é um trabalho insatisfatório e mal remunerado. Os mais ambiciosos dos meus alunos sonham com a participação um qualquer programa de lixo televisivo que lhes dê uma carreira em televendas ou a apresentar os números da sorte que transformam alguns bafejados em milionários. Esqueço-me do nome deles, abomino que se escondam por detrás de ecrãs e finjo. Como finjo que não me perturba a fuga dela para o corpo de outro. Não existe vida tão deplorável como a minha. Em rigor o meu problema é lembrar-me em excesso das ausência. Do que era.

  Levanto-me e dirijo-me à casa de banho. No saco de pano tenho tudo o que preciso. Contagem decrescente. É agora. O sorriso da hospedeira extingue-se no rosto quando aponto para a cintura. Leio-lhe a ansiedade nos olhos . “Isto é um cinto de explosivos. Se fizerem o que vos digo, ninguém sairá magoado”. As vozes silenciam-se, alguns passageiros passam o braço em torno da mulher ou dos filhos apertando-os contra si, pele com pele, melhor meio não existe de afastar da mente as preocupações. Enchem-se olhos de lágrimas. O pensamento da morte tornou-se-lhes inevitável. Mas não querem morrer a bordo, não querem morrer com medo. Sentem-se traídos. Como eu, desde que ela esqueceu tudo o que prometêramos um ao outro e me deixou de dizer palavras obscenas ao ouvido quando a desnudava. “Só quero entregar uma carta. Uma derradeira carta. Uma tentativa”. 

O piloto aterra. “Podem sair. Vocês ficam”. O medo infantiliza os sorrisos. Os libertados saem. Fica a tripulação e dois jovens passageiros. Um pergunta-me, “posso tirar uma fotografia consigo ? Se morrer não será uma morte comum”. O exílio mais cruel para alguns não é o da falta de amor, mas o da falta de twitt. Acedo. O twitt foi publicado. A carta entregue. Os explosivos eram como o colar de pérolas que lhe ofereci: fingidos. O polícia que me detém suspira, “inventaram detectores de metal, faltam criar os detectores de paixão”. Há amores que só existem na ausência total de realidade, nem que seja preciso sequestrar um avião. 


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