Ausência 

O café esfriou. Não o consigo beber. É amargo. Sabe a fracasso.
O distraído beijo matinal que me pões nos lábios é como um livro de esqueci o enredo, mas que teima em permanecer nas minhas mãos. Sabe a rotina.
Fechas a porta atrás de ti. Dizes até logo e alegras-te por não te deter. Pobre amor feito de mínimos.
No andar de cima há barulho. Preferia que fosse silêncio como o que me envolve agora que estou sentada perante uma chávena de café frio com sabor a fracasso.
Deixo-te. Comprei café da Colombia, desses que exigem um ritual dedicado para lhe arrancar o sabor. Pobre amor tão árido como a salitreira de Atacama. Deixo a chave na caixa do correio.
Esta viagem é diferente. Não quero inverter o sentido da marcha nem fazer de nós letra de tango. Nem amaldiçoo a poeta que se me embosca debaixo da pele. 
Escrevo um bilhete lacónico. A maior fatalidade é acabarem-se as palavras. É como café frio com sabor a fracasso. 
Sou uma ausência mais, uma mais,e, como estás tão cheio de ausências, não sentirás a minha. 


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