Solidão e convicção

A uma semana de eleições regionais e face à crescente contestação interna no seio do seu partido a chanceler alemã quer um compromisso firme na cimeira com Ancara. Se este ficar aquém do desejado muitos prevêm o fim da carreira política de Angela Merkel. Será mesmo assim? Tenho muitas dúvidas. Durante décadas a imprensa escreveu “Kohl kaputt” e o chanceler manteve-se no poder durante 16 anos e pelo meio reunificou a Alemanha.

O general De Gaulle começou as suas memórias escrevendo “toute ma vie, je me suis fait une certaine idée de la France“ e não considerou necessário, se porventura o entendeu possível, explicitar o conceito. Da mesma forma, a ideia de Europa de Angela Merkel, uma experiência partilhada de valores e interacção histórica visando a preservação da paz, não pode ser condensada numa fórmula simples. Talvez se possa tentar uma aproximação a esta ideia recuando ao ano 2000.

Numa conferência de imprensa no decorrer de um congresso dos democratas-cristãos, um jornalista perguntou: “a senhora reza?“. Sem hesitação Merkel respondeu: “sou membro da Igreja protestante de plena convicção“.

Ao tomar talvez a decisão mais difícil da sua vida e ao devolver a responsabilidade ética à política Angela Merkel fê-lo sabendo que teria contra si boa parte da opinião pública alemã e europeia. Os cínicos acharão que é teatro para “limpar a imagem” externa criada durante a crise financeira. Não lhes ocorre que o pôr a carreira política desta forma em jogo, quando seria mais fácil, deixar que os gregos, os espanhóis ou italianos resolvessem o “problema” dos refugiados, se  prende com uma questão de consciência e convicção.

“Se a Europa fracassar na questão dos refugiados, se esta ligação próxima com os direitos civis universais se quebrar, então esta não será a Europa que desejámos”, tem repetido incessantemente a chanceler frisando que Berlim está disposta a fazer uso todo o seu peso para que se encontre um compromisso.

Dito de uma forma muito simples: nesta Europa desavinda há que lembrar o conceito de eixo da roda, que neste caso é o legado humanista e o projecto . O eixo não se move, mas sem ele os movimentos da roda seriam impossíveis. Quebrado o eixo pára o veículo.

 

 


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