Tango em Oshakati:uma história de amor

Era já noite quando cheguei ao hotel em Oshakati. Morta de cansaço de depois de duas semanas em Moçambique e esperas no aeroporto de Windoek. Fiz o check-in na residencial, tomei um duche rápido e desci as escadas para ir comer qualquer coisa leve no restaurante.
“Desculpe posso sentar-me à sua mesa?”. O restaurante estava vazio e na residencial só estávamos hospedadas eu e aquela desconhecida que sorria com ansiedade. Sempre me interessaram as histórias dos outros. Com a mão apontei-lhe o lugar livre à minha frente. “ Gosta de tango?”. Que raio de pergunta tão absurda para se fazer na Namíbia e àquela hora.

“Tengo el corazón hecho pedazos, rota mi emoción en este dia”, cantou com voz poderosa. Depois começou a soluçar, numa intensidade crescente. Segurei-lhe a mão e guardei silêncio. O silêncio é capaz de apreender o indizível da dor que nos deixa em estado de sufocação. Eu estava esgotada, a imaginar as horas de jipe que teria de fazer pela manhã até à fronteira angolana, mas não consegui ficar indiferente à forma como me abriu a janela da alma. “Sabe eu não estou do lado raiva, embora a raiva seja tentadora, até válida e parte da natureza humana”. Aquela australiana, no final dos trinta, tinha o coração despedaçado.

Contou num longo e detalhado relato que teve uma vida fantástica, que lhe calharam em sorte pessoas boas, que se apaixonou perdidamente por um homem mais velho. Ela pintora, “a tela é uma espécie de superfície projecção onde tento produzir uma sensação de paz nas pessoas que a vêem, dessa forma acalmo-me”, ele piloto, pragmático, racional, frio. Durante anos andaram num jogo de toca e foge. Ele quis casar, ela não quis, ela quis casar, ele não quis, ele quis casar… Até ao “já não te amo” abrupto. Definitivo. Deixaram de falar há um ano. Ela vendeu a casa comum.Pensou em suicidar-se, mas em vez disso pegou numa mochila e foi viajar pelo mundo. Com uma máquina fotográfica e sem telemóvel. “Evitando sempre que possíveis aviões que me fazem suspender a respiração a pensar nele”.

Perguntei-lhe “porquê sem telemóvel ? E a sua segurança?”. “Zangámo-nos tanto, tanto ao telefone. Ele era incapaz de dizer palavras ternas e estava sempre a despachar. Parecia que o incomodava falar comigo”. De súbito lembrei-me de um artigo semi-científico que havia lido em tempos numa das muitas escalas de aeroporto. Em jeito de brincadeira, ou talvez nem tanto, o autor dissertava acerca das diferenças entre o cromossoma Y,masculino, e o X,feminino. Entre as manias masculinas estaria o gosto pelas ferramentas, o fascínio por animais perigosos e a falta de paciência para escutar, ler ou ter conversas longas e abrangentes. Já o X mostrava a necessidade de verbalizar emoções, de ter longas conversas, e uma certa repugnância por bichos exóticos (sejam eles aranhas, répteis ou outra bicharada idêntica).Disse-lhe que as diferenças entre homens e mulheres, por vezes geram abismos de incompreensão e não há como tentar conversar, tentar entender o outro. Parece fácil mas não é. No ínicio não está o sexo, mas o verbo.

Acalmou-se e eu contei-lhe uma longa história, como gostava de fazer sentada à beira da cama das minhas filhas. Contei-lhe a história do coração como simbolo do amor galante e carnal. O coração estilizado que usamos nos nossos dias devemo-lo a uma cidade-estado grega, Cirena, que ficava situada no que é hoje a Líbia. Lá existia uma planta medicinal, o sílfio, que se acreditava ter propriedades contraceptivas, a planta tornou-se de tal forma importante para a cidade que as moedas se passaram a cunhar com uma semente de sílfio, que tem a forma de um coração. Porém, muito antes dos gregos associarem o coração aos prazeres de carne, milhares de anos antes os Egipto dos faraós representavam a palavra ieb ou ab, alma, por um hieroglifo em forma de coração. Ela, absorveu as minhas palavras como se fossem um oráculo. Parámos de conversar ao romper da manhã. Ela saiu a sorrir e aceitou o meu cartão de visita. Tomei um duche rápido e parti em reportagem com a equipa da NBC. Quando regressei à Guest House ela tinha partido. Não me esqueci dessa noite na qual sob um céu de capulana polvilhado de estrelas  duas mulheres desconhecidas falaram de homens e de amor.

Hoje recebi um email da Austrália. Quatro anos depois. Dizia: “Casámo-nos esta semana. Tinha razão. No princípio era verbo. O meu marido, nunca pensei dizer esta palavra, quer conhece-la. Querida: ¡Que nunca tengas que llorar! /¡Que no conozcas el dolor! Y que en tus ojos, el amor, /viva radiante como hoy”.

(estou a aqui a chorar como uma Madalena)P1020070

 

 

 


6 thoughts on “Tango em Oshakati:uma história de amor

  1. Este texto lembrou-me de um debate que eu, ainda adolescente, tive com uma amiga acerca da alma. Ela reparou que, quando eu falava em alma, colocava a mão no peito, e perguntou-me porquê. Eu expliquei-lhe que o gesto era instintivo, mas que considerava que a minha alma estava em mim, dentro, no meu centro e perguntei-lhe para onde apontaria ela para a sua alma se, ao falar da mesma, usasse gestos. Ela respondeu-me que a alma, para ela, estava na cabeça. Era a mente. E fiquei curiosa, desde aí, em saber onde “guardam” as pessoas a sua alma, onde, no seu entendimento, esta se aloja.
    Esta história que conta, é maravilhosa. Fico contente por saber que passagens destas, e finais destes, também cabem fora das histórias inventadas. Sempre achei ser esta a riqueza das viagens, quem se encontra pelo caminho. Obrigada por partilhar.

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