Rabanetes: ou a prosaica aproximação entre alemães e sírios 

Khaldon calça umas galochas enlameadas e esfrega as mãos uma na outra. A chuva gelada de Fevereiro, a uma hora em que até as árvores ainda estão a dormir, não o incomoda. “É tão bonito isto aqui”, diz este homem corpulento, de olhos castanhos, quentes. “Como uma aldeia. Muitas vezes sentamo-nos aqui a beber chá e a olhar para a cerejeira”. A cerejeira fica ao fundo do jardim, nos canteiros delicados rebentos amenizam a aspereza invernia. O “aqui” é Wentorf, uma localidade de 12 mil habitantes, em Schleswig-Holstein. 12 mil habitantes. 650 refugiados. 

Quando Khaldon chegou à Alemanha, há pouco mais de um ano, viu por todos os lados os Schrebergärten (pequenos jardins fora das cidades que são alugados para o cultivo de legumes ou flores). “No início não entendi a ideia. As casas são demasiado pequenas para lá viver”. Khaldon é de Latakia “e em Latakia não existem Schrebergärten”. Em Latakia era advogado. Dois dos seus clientes eram da resistência contra Bashar Assad. A polícia secreta não perdoou. Fugiu para a Alemanha em Setembro de 2014 e em 2015 viu reconhecido o seu estatuto de refugiado. Fala um inglês fluente, mas no início sentiu-se perdido em Wentorf. “Tínhamos a vida aqui à volta, mas não a entendíamos”. Na Primavera começa um curso de alemão. 
Faço aqui um parêntesis e já volto à história de Khaldon. Na sexta-feira estive com os “meus” refugiados, jovens homens. Perguntaram-me: “achas que é importante aprendermos alemão?”. “Claro que sim. Como vão conversar com as miúdas?”. A gargalhada rebentou de imediato. Cristalina e longa. Um deles, que já fala um alemão muito razoável, aprendido a ver programas infantis e a escutar velhas cassetes no centro de acolhimento, pediu delicado: “ajudas-nos a encontrar aulas? Que não sejam muito caras”. 

Por uma daquelas coincidências extraordinárias em que a vida é pródiga, conhecia a Suzi, uma alemã, germanista e orientalista, que fala fluentemente árabe e trabalhou na Universidade em Damasco e Alexandria. Deu-se um pequeno milagre. Sem hesitar, em poucos minutos ela comprometeu-se a dar aulas intensivas de alemão aquele grupo de jovens homens,nas instalações da paróquia. Sem custos. Organizei uma lista de Whatsapp – todo o trabalho com refugiados passa por grupos no Facebook e no Whatsapp – daqui a dias o Hamed, o Omar, o Hussein e todos os outros se debaterão com as subtilezas da gramática alemã.  
Fim de parêntesis. Regresso à história de Khaldon. Desorientado em Wentorf, sem bússola cultural, começou a navegar na internet até encontrar um grupo de voluntários. Contactou-os. Uma voluntária teve a ideia: um jardim para escapar à tristeza do centro de acolhimento. Contactou a organização responsável pelos Schrebergärten. ” Sírios? Refugiados? Aqui?”. O presidente da câmara interveio e a Khaldon foi atribuída a parcela número 6. Estava abandonada, cheia de lixo. Em Julho Khaldon e os amigos arregaçaram as mangas. Limparam, desmataram, puseram o velho cortador de relva em funcionamento. “If there is something kaputt, we fix it”. Pintaram a casinha de jardim. Trouxeram um pequeno fogão de gás para cozinhar iguarias orientais. Agora faltavam só as plantas e saber como se cuida delas. Timidamente os primeiros vizinhos jardineiros trouxeram sementes e explicações ( no peito de cada alemão bate o coração de um jardineiro, acreditem ). “Plante os rabanetes ali, as alfaces dão-se melhor acolá”. Aos poucos o “jardim dos sírios” foi adoptado pelos alemães. Um ofereceu uma amoreira, outro a cerejeira que está no fundo do jardim. No Verão grelharam em conjunto. Salsichas de porco e de frango. Hoje jogam futebol juntos e esperam juntos pela primavera. “Quero colher mais morangos este ano e cerejas”. Sorri. Passa o primeiro vizinho. “Gutten Morgen”.  O termómetro mostra três graus. A solidariedade reconforta.

   
   


4 thoughts on “Rabanetes: ou a prosaica aproximação entre alemães e sírios 

  1. obrigada por partilhar, Helena. estas histórias fazem falta. os europeus têm de deixar de olhar para os refugiados como se estes fossem bestas rurais, incultos ou analfabetos. somos seres humanos, nós e eles, e era desta base que devíamos partir.

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