Raça e preconceito

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A 12 de Fevereiro de 2001 foi apresentada, em cinco capitais mundiais,  a sequenciação do genoma humano. O abecedário do ser humano revelado pela ciência salva-nos pelo avesso, dá respostas mas coloca muito mais perguntas, inquieta.

Temos pouco mais do dobro dos genes da mosca da fruta:uns meros 30 mil, metade de um grão de arroz e sensivelmente os mesmos que um ratinho de laboratório. Mais interessante do que o demonstrar a nossa insignificância é o facto da genética deitar por terra a noção de raça. “De um ponto de vista genético todos os seres humanos são africanos”.Palavras de  Svante Paäbo do Instituto Max Planck de Antropologia da Evolução. Mais, é possivel encontrar maiores diferenças genéticas entre dois lisboetas brancos do que entre um louro escandinavo e um negro africano. Partilhamos 99,9 por cento do material genético com os restantes mais de seis mil milhões de habitantes do planeta Terra.

A ciência deitou abaixo a estátua com pés de barro que é a raça, a sociedade 15 anos depois ainda não fez. Nunca conversa com alguém conhecido referi uma das meninas sírias com quem estou a trabalhar, a resposta do outro lado acertou-me como uma pedra: “não compares essa miúda com a minha filha”. Já me aconteceu muitas vezes ser confrontada com a questão da raça e do preconceito e já me aconteceu tantas vezes ser eu a diferente.

Lembro-me de um episódio que se passou da  última vez que estive na Guiné-Bissau, em  2012, era domingo e levantei-me   bem cedo. Céu azul de Verão. Podia dizer que cantavam os galos, mas eles cantam com tanta frequência nas ruas de Bissau. Mais numerosos que eles só os abutres. Deixei a ilha que é a Residencial Coimbra, subi a Amílcar Cabral e assisti à abertura de uma mesa de voto. Falar em abertura é quase redundante quando a mesa de voto é ao ar livre, em pleno passeio. Às sete da manhã já havia fila para votar, numa cabine de papelão. Comove-me sempre esta não desistência, impressiona-me este acreditar. Si bu misti kume fruta, bu ten ku régua (se quer comer fruta, tem de regar a planta).

Eram oito e dez quando entrei na Catedral. “A que horas é a missa?”, perguntei. “Às oito”. Os vinte minutos que se seguiram permitiram-me conhecer a Clemência, uma menina de idade indefinida, que mal me viu encostou o braço ao meu, depois tocou-me no cabelo. “Gosto de ti mamã. És esquisita”. E sorriu-me.

René Girard , antropólogo francês  escreveu que a nossa sociedade tem um “sistema vitimário”. Projectamos num bode expiatório tudo o que não queremos ver em nós próprios. Dessa forma, como os antigos judeus faziam (transferiam para o bode todos os pecados e enviavam-nos para o deserto), colocamos numa pessoa só  o criminoso, o maldito, o proscrito) todos os males, excluímos essa pessoa; e isso dá-nos um alívio muito grande. É o sistema do beco sem saída como diz o poeta Tolentino de Mendonça. Costumo pensar que um dia o bode poderemos ser nós e que como  escreveu o poeta “só quando tocamos a fundo a vulnerabilidade do outro”, que é também a nossa, “somos capazes somos capazes de dar passos noutro sentido.

(isto tudo pode sintetizar-se de forma muito simples: racismo é ignorância, burrice e maldade)

 

 

 

 

 


2 thoughts on “Raça e preconceito

  1. Cara Senhora, sou leitor antigo do seu “blogue”, que sigo com muito interesse, tendo-a eleito há muito como uma das minhas fontes de informação sobre a realidade política e social na Alemanha, seguindo igualmente com curiosidade e interesse os seus episódios da vida doméstica (o divertido “post” sobre o lanche-debate da sua filha mais nova com o então líder do SPD é de antologia…!) . Li com atenção este seu “post” sobre raça e preconceito, e não queria deixar de comentar que este é mais um dos muitos exemplos de como “de boas intenções se faz o Inferno”, já que a acusação de preconceito também se aplica aqueles que defendem quase como uma verdade de fé, a não existência de raças, buscando incessantemente provas definitivas para o seu bem intencionado dogma. Acontece que, como em tudo na vida, e principalmente, quando se trata de apresentar dados científicos temos que manter a frieza e o equilíbrio racional, deixando de parte os nossos sentimentos (as tais “boas intenções “infernais”), para não contaminar a verificação dos factos. A respeito destes, e apesar da “malha censória” politicamente correcta não deixar transparecer isto (constituída quase toda ela por pessoas brancas, já que os estudiosos e divulgadores científicos de outras raças, são curiosamente – ou não – menos “fanáticos”); as informações mais recentes no domínio da genética e da paleontologia (que ao contrário do que se imagina, são ciências onde as certezas científicas ainda são objecto de muita discussão interna e com teorias ainda pouco consolidadas entre os seus pares – costuma dizer-se que onde se reúnem dois especialistas em Genética ou em Paleontologia, costumam sair três opiniões diferentes…, dado que ao contrário de outras ciências mais antigas, como por exemplo a Astronomia, estas têm muitos mais “mistérios” ainda por investigar) os estudos mais recentes demonstram precisamente o contrário; ou seja, os actuais seres humanos parecem ter participação na sua origem de espécies diferentes de humanóides, que curiosamente, têm sido descobertas e distribuídas “democraticamente” por continentes diferentes (e já não apenas em África), caminhando-se cada vez mais para uma nova teoria que os brancos, pretos e amarelos têm na sua concepção percentagens diferentes de espécies diferentes, algo que cientistas orientais (Escola Chinesa) já defendiam no princípio do século XX . Por outro lado, não pode utilizar-se o genoma como prova que “somos todos o mesmo”, pois bem vista as coisas, a estrutura de ADN da mosca da fruta é muito semelhante à da espécie humana, mas não consta que por causa disso alguém lhes vá consagrar direitos, liberdades e garantias constitucionais que defendam, por exemplo, o fim da pena de morte (normalmente, através dum jornal enrolado) destes nossos “parentes” voadores mais ou menos chegados…Em Espanha, no tempo do governo “progressista” do Sr. Zapatero, chegou mesmo a haver um apaixonado debate sobre o fim da “discriminação” dos grandes símios, como os chimpanzés e os gorilas, que gente douta achava que deviam ter direitos semelhantes aos seus primos com menos pêlo, dado não haver praticamente diferenças genéticas (o que é verdade) entre aqueles e o resto do eleitorado…É que defender a dignidade humana com recurso ao teste do laboratório, pode muitas vezes transformar-se numa espada de dois gumes, pois se a experiência não comprovar a teoria, as consequências mais horríveis poderão surgir desta simplificação da verdade científica. Por outras palavras, mesmo que por hipótese, brancos e pretos pertencessem a espécies concorrentes, não havia razão para por causa disso, deixarmos de nos respeitar uns aos outros.

    Com especiais saudações “alfacinhas”

    P. L.

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