Um mero polícia 

Partilhamos aquele tipo de amizade que resiste à distância, aos desencontros da vida e às diferenças todas. 

Temos conversas que são como fogo amigo, sinceras e muitas vezes dolorosas, já perdi a conta às vezes já me zanguei e reconciliei com ele. Somos uma espécie de fósforo e gasolina. 

Na última conversa e enquanto eu saboreava o meu café o S. disse-me “sou um mero polícia”. Lembrei-me logo do policia triste do Leonardo Padura com pena de si próprio. Na altura escutei-o, agora contra-argumento.

Poucos de nós não têm enormes expectativas acerca da nossa passagem pelo mundo. Queremos ser “grandes”. Não há nada de errado nisso. Penso que a sabedoria está em aceitar que devemos medir a grandeza com a nossa própria fita métrica, não pela dos outros. Se nos tornamos reféns de agradar aos outros estamos sempre em falta. 

Ninguém é importante só porque aparece nos media ou está sob holofotes (e os que estão vivem em pânico de fazer algo em falso). Ou porque é inteligente ou rico. Somos “importantes” na medida em nos damos. 

Conheço muitos polícias que estão prisioneiros de uma imagem que julgam que os outros têm acerca de si ou que pensam que o mundo conspira contra eles, que não gostam deles. Alguns criam um escudo de kevlar em torno das emoções. Sofrem mas não querem que se saiba que sofrem, choram mas não querem que se saiba que o sal das suas lágrimas é igual ao da mulher ou do homem com quem partilham a vida. 

Este “complexo de inferioridade”, chamemos-lhe assim, faz deles pessoas desconfiadas, prontas a saltar como um felino à menor contrariedade. Nas suas relações pessoais não são pessoas fáceis.  Só que entre a sua percepção da realidade e a realidade vai à distância que os podia deixar descontrair-se. Ora vejamos. 

Os estudos demonstram que entre a imagem que os polícias pensam que a sociedade tem deles e a realidade há uma enorme divergência. A maioria das pessoas gosta deles, admira-os. Acontece que a maioria deles lida com a minoria da sociedade que não respeita as normas e o Estado de direito que eles têm como missão defender. O que essa minoria pensa ou demonstra não é representativa da imagem da classe. Nem os comentários nas caixas de comentários dos jornais. 
O meu amigo que é “um mero polícia” pertence ao Corpo de Segurança Pessoal da PSP, uma sub-unidade de elite. Conhece artes marciais, conduz a velocidades quase impossíveis (para minha segurança quando estou com ele conduzo eu), não falha um alvo imóvel ou em movimento e já protegeu políticos nacionais e estrangeiros, o Papa e Presidentes americanos. 

Apetecia-me dizer-lhe, como já lhe disse muitas vezes, “deixa de ser parvo, és um gajo extraordinário. Quantas pessoas não queriam estar no teu lugar”. Além de um grande profissional é um pai dedicado, um amigo resmungão, mas leal , e uma pessoa íntegra, daquelas que escasseiam cada vez mais. 

Ao meu querido amigo “mero polícia ” pergunto: que luzes necessitamos para viver ? Quem e o quê que de facto importa de verdade ? 

Não são os afectos o que conta ? E as nossas acções? Não são os abraços a amigos, os beijos a amigas (não abuses) e o carinho dos que gostamos que nos iluminam? Não é fazermos bem o que gostamos que nos dá espessura ? 

Não há pessoas “meras”. Há gente e há pessoas. E há os amigos.

A amizade verdadeira é uma espécie de amor aperfeiçoado. Sem traições e com shots de vodka divididos (ou pipocas, ou bolos de chocolate). Pensando bem as pipocas são só minhas. 

Dentro de ti meu grande parvo “mero polícia” habita uma vida larga. 

( e deixem-se de “tretas”, para usar uma das mais suaves expressões da linguagem de caserna, nós gostamos de vocês)


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