Surdos 

Foram cinco dias em Lisboa a ouvir histórias. Mais ou menos íntimas, pequenos e grandes sonhos, angústias e felicidades. Quase todas elas fora norma, inesperadas.

 Uma amiga flirta com a ideia de, tendo como capital uma herança criar uma ONG de empoderamento de mulheres em Cuba. Outra planeia fazer a mítica Route 66 com um amor to be para esquecer um amor to go. Um amigo escreve boa poesia, falha-lhe a coragem de mostrar a sensibilidade, pertence a uma força de elite onde a poesia é “coisa de meninas”. Ainda outra amiga separou-se do homem da sua vida, guarda no telemóvel a última e belíssima mensagem que ele enviou, recusa apaixonar-se. “Como ? Se o termo de comparação é ele ?”. 
Adoro ouvir histórias. Ouvir é uma das características mais fascinante do ser humano, por que nos oferece a possibilidade de conexão com o outro. Fechar-se a ouvir é condenar-se à solidão, condenar o outro à solidão e bater com a porta ao novo, ao inesperado.
Num maravilhoso artigo sobre o silêncio e a escuta Eliane Brum escreve, “escutar é também um profundo ato de amor. Em todas as suas encarnações. Amor de amigos, de pais e de filhos, de amantes. Nesse mundo em que o sexo está tão banalizado, como me disse um amigo, escutar o homem ou mulher que se ama pode ser um ato muito erótico. Quem sabe a gente não experimenta?”
Erótico porque ouvir de verdade implica despir-se de todos os seus preconceitos, das certezas inabaláveis para se colocar no lugar do outro. Seja o filho, o pai, a amigo, o amante, o vendedor de castanhas ou esse barbeiro dos tempos modernos que é o taxista.
“Observe algumas conversas entre casais, famílias. Cada um está paralisado em suas certezas, convicto de sua visão de mundo. Não entendo por que se espantam que ao final não exista encontro, só mais desencontro. Quem só tem certezas não dialoga. Não precisa. Conversas são para quem duvida de suas certezas, para quem realmente está aberto para ouvir – e não para fingir que ouve. Diálogos honestos têm mais pontos de interrogação que pontos finais. E “não sei” é sempre uma boa resposta”. 

Ouvir de verdade é entregar-se. É esvaziar-se como um balão para se deixar preencher pelo mundo do outro. E vice-versa. Assim nos reinventamos e tocamos a alma do outro. Não há nada de mais generoso. 

“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular”. As palavras são do escritor brasileiro Rubem Alves e um libelo contra a surdez por escolha.


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s