Europa das cercas 

Escrevo estas notas breves no iPhone sentada numa mesa de café no aeroporto de Colónia. Passei o controlo de segurança de forma rápida e mecânica. Sinto que o mundo está em mudança, mas não consigo imaginar o regresso do controlo de passaportes no espaço europeu. A última vez que um polícia fronteiriço, no velho continente, me pediu o passaporte foi num comboio nocturno, de Viena para Praga, há muitos, muitos anos. Ficou-me na memória o polícia checo, um miúdo de chapéu desproporcional e modos bruscos,  que entrou na carruagem,  encurtando distâncias, apontando uma lanterna aos meus olhos sonolentos e quase gritando  com tom férreo “Pass bitte!”

Acabei a leitura da imprensa alemã e toda ela se foca num tema: o Conselho Europeu desta quinta e sexta-feira, que poderá merecer, no melhor ou no pior dos cenários, o qualificativo de histórico, não apenas porque nele se decide o futuro político da chanceler alemã. 

Embora o uso dos superlativos deva merecer contenção, estou convicta que esta cimeira será histórica por um conjunto de razões: 

– poderá ditar o fim de uma das maiores conquistas da UE, a livre circulação de pessoas e bens.

– uma eventual exclusão da Grécia do espaço Schengen (tal como é proposto pelos Estados de Visegrado é apoiado pela Áustria) complicaria ainda mais a dramática situação no país.

– nenhuma solução será encontrada sem envolver a Turquia ( esta quinta feira, antes do Conselho, dez chefes de governo da UE reunir-se-ão com o primeiro-ministro Ahmet Davutoglu). Ancara saberá usar a seu peso geopolítico para redefinir a sua relação com a UE.

– o Draft do comunicado final da cimeira, que circula entre os jornalistas, prevê o “fim de uma política do ‘deixar passar’ “, um parágrafo incluído pelo presidência polaca da UE para tentar incluir os Estados de leste numa solução comum.

– a redistribuição justa do número de refugiados parece para já afastada, o que poderá facilitar um acordo agora, mas mina a posição de Estados que se têm mostrado mais solidários.
– o fantasma do Brexit paira sobre os debates embora seja dado como quase certo que David Cameron (apesar das resistências francesa e dos países de Leste) obterá o seu acordo. 
O diabo esconde-se, todavia, nos detalhes deste acordo: ele prevê o direito de veto do Reino Unido em decisões da zona Euro ( Paris diz não); o corte de prestações sociais, como o abono de família ou subsídio de desemprego, para cidadãos da UE; restrições à livre circulação de trabalhadores.

Para muitos europeus a União Europeia transformou-se numa espécie de caixa multibanco à qual se vai buscar dinheiro quando necessário. Talvez, e face aos actuais desenvolvimentos, seja de recordar a alguns estados-membros que quem não faz depósitos na conta, não terá  liquidez, dito de uma forma mais clara: a falta de solidariedade na questão dos refugiados não pode a prazo ficar sem consequências pecuniárias. Se os valores e os argumentos políticos não chegam há que apelar onde dói mais. 


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