Conto de Ano Novo

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Havia um muro de pedra que bordava o caminho. Bordava e ainda borda. Eu é não passo naquele caminho há muito tempo, nem vejo a silhueta do muro recortada contra o céu a despedir-se da noite. Nem prendo o olhar nas maçãs bravo-de-esmolfe, nos  medronheiros  ou no pessegueiro ao fundo.

Era véspera de Ano Novo. Conheci-te porque me apeteceu estar na companhia de um desconhecido. Deslizava para essa solidão demasiado humana de não querer estar com ninguém e para não estar sozinha. Somos bem melhores no fingimento quando a solidão vem de toda a parte e é daquelas não está nas estatísticas.

Os amigos foram para a neve. “És tão parva, porque não vens? Fazia-te bem”. Os amigos sabem sempre o que nos faz bem. Escolhem a banda sonora da vida com canções feitas à medida de cada estado de alma. Nesses dias derradeiros do ano a minha melodia era do Chico Buarque, em memória de uma felicidade de outrora. “O que será que me dá/Que me bole por dentro, será que me dá /Que brota à flor da pele, será que me dá /E que me sobe às faces e me faz corar /E que me salta aos olhos a me atraiçoar /E que me aperta o peito e me faz confessar/ O que não tem mais jeito de dissimular”.

Apetecia-me entrar num avião para a Tanzânia, escalar as neves eternas do Kilimanjaro com dedicação de entomologista à procura do insecto raro. Abrir a boca de espanto como o barão alemão Klaus von der Decken e o botânico inglês Richard Thornton, os exploradores da montanha branca. “ África outra vez? Não estás cansada? Já ninguém quer saber das guerras de África”. Não depende das histórias tornarem-se histórias, nem das guerras tornarem-se notícias. Todas são barro de todos. Vem alguém e conta-as ou cala-as. Respondo que sim, que fico.

O último dia do ano é como um vidro de aumento para as nossas fragilidades. Refugio-me nesse espaço de inocência que é a província e casa materna. Onde a rotina na execução dos mais ínfimos gestos do quotidiano tranquiliza e as tábuas enceradas do chão conservam a memória da menina que fui escorregando em meias. Na velha poltrona da sala o gato deita-se no lugar onde ficou contorno do corpo do pai, presente como uma cicatriz, e o seu roncar. As fotografias a preto e branco sobre o piano, pousadas pelas mãos maternas,  abrem janelas para quartos cheios de vida. Janelas para esse tempo em que tudo era belo e a dor maior era a de esfolar os joelhos a escalar os muros que bordavam os caminhos.

E se eu mostrasse o que guardo no peito? Não.  Não posso perturbar os amigos.

Saio para rua. Está frio, frio, mas o céu está um postal. Azul com um friso de nuvens enroscadas. Percorro a estrada que ladeia a quinta. Foi aí que te encontrei. Lembras-te que me seguraste quando eu tropecei e quase cai? Parece de romance barato, mas os milagres acontecem a horas incertas. Fugias ao punhal das horas da cidade e “à seca dos processos” que se amontoavam sobre a secretária. Há conversas que se têm como calmantes, para impedir de pensar. E tu eras um bom conversador. Sabias rir e tanto que nos rimos. Contaste-me a anedota da mulher emancipada que escolhe o lobo mau e não o príncipe encantado, porque o lobo a ouve melhor, a vê bem e no final da história ainda a come. Fingi desconhecer de que livro a retiraste, porém gostei da coincidência de citares,sem saber,  a minha escritora de eleição.

Caiste-me de forma abrupta no sapatinho esquerdo, que é o do lado do coração. Devoravas livros, adormecias em cima deles, adoravas a Cecilia Bartoli. Aceitei o teu convite para jantar e ouvimos juntos um extraordinário Yo que soy contrabandista.  “Y a todos los desafío, porque a nadie tengo miedo”, susurraste-me ao ouvido. As mãos procuraram-se com suavidade.  Depois a vertigem. Muitas vezes procurei apagar um corpo em outro, a saudade de uma pele noutra. Não quero acordar ao teu lado, não posso.

Vinha acima, ao longo do muro, de volta a casa, beijaste-me a ponta dos dedos como quem tem uma missão a cumprir antes do dia clarear.  “Fica”, disseste entre as azevias e o chá quente com que saudamos o novo ano na velha casa materna. Não disse nada. Assim que fechaste a porta, agarrei na roupa atirei-a para dentro da mala e fiz-me à estrada. Nas semanas seguintes alimentei-me de cappuccini e do teu olhar tão verde. Não respondi às tuas chamadas, nem às tuas mensagens. Tive medo, tanto medo de perder o teu cheiro, o cheiro do começar das coisas e a tua voz. O medo salva-nos do que não saberíamos enfrentar.

Não voltei a passar junto ao muro onde me beijaste a ponta dos dedos. Sei-o de cor.


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