Suite francesa

Por esta altura multiplicam-se as listas dos livros do ano. O meu livro do ano é um extraordinário romance que me foi oferecido há três por uma amiga, antes de suicidar. Não tinha tido coragem ou a força necessária para pegar nele. É um livro sobre os abismos e a complexidade da alma humana e sobre a fragilidade dos elos de solidariedade em momentos de desespero. Falo de Suite Francesa,obra póstuma de Irène Némirovsky, escritora judia nascida na Rússia, mas francesa de coração, que acabaria traída pelos franceses e morta pelos alemães em Auschwitz.

O livro retrata o êxodo parisiense, em Junho de 1940, com os alemães às portas da cidade. É um relato cruel, sem heróis e pleno de pequenas cobardias. O salve-se quem puder. O ser humano pelo seu lado mais feio. A fuga de gente que pelo estatuto social se julga acima da tragédia e se enojou por ter de fugir com o “povo”.

Quando as perseguições aos judeus começaram em França, Irène Némirovsky, nascida em Kiev no ano de 1903 e filha de um dos banqueiros mais endinheirados da Rússia, Michael o marido e as duas filhas refugiaram-se numa aldeia. A capital e os círculos literários em que a escritora bem sucedida, se movia, ficaram para trás. Os que dantes a admiravam e se diziam seus amigos afastaram-se. Com excepção do editor Albin Michel. Na correspondência entre Irene e Albin – que complementa a minha edição – fazem-se esquissos da vida na clandestinidade e das humilhações diárias.

Irene seria denunciada por habitantesda aldeia, seria presa a 13 de Julho de 1942 por polícias franceses que a entregaram aos alemães. “A 11 de Julho de 1942 trabalha na floresta de pinheiros,sentada sobre o seu pulôver azul, ‘de pernas dobradas, como numa jangada, no meio de um oceano de folhas apodrecidas e molhadas pela borrasca da noite anterior’”, relata no prefácio do livro a escritora Myriam Anissimov.

Embora Irène Némirovsky tenha concebido o livro como uma obra em cinco partes (com base nacQuinta Sinfonia de Beethoven), só conseguiu escrever as duas primeiras partes, Tempestade em Junho e Dolce, antes de ser presa. Morreria em Auschwitz no mês seguinte. Com treze anos, Denise, a filha mais velha da escritoria, trabsportarua na sua fuga uma mala velha o derradeiro manuscrito da sua mãe. Anos mais tarde Denise (as duas filhas sobreviveram à Shoah) decidiu-se a entregar o manuscrito a um editor. Em 2004 o livro seria a sensação da Feira do Livro de Frankfurt.

“Tempestade de Junho”, a abertura do romance traça a lápis o colapso económico francês e a angústia vivida em Paris após ser declarada a guerra.
Irène Némirovsky, descreve cenas do quotidiano em duversos lares – do abastado banqueiro Corbin, ao já idoso casal de classe média, os Michaud, passando pela família Péricand,e pelo pretensioso escritor Gabriel Corte.

Na segunda parte, Dolce, a acção passa para o campo e a autora surpreende com a figura de um alemão sensível, culto e educado – Bruno von Falk a como contraponto a Kurt Bonnet o tenente intérprete do Kommandantur fascinado por pintura flamenga. É doloroso o contraste entre a delicadeza de alguns soldados alemães – não judeus – e a indiferença, a mesquinhez e pequenez de caracter da França colaboracionista.

Este é um tratado profundamente actual sobre a alma humana e os seus abismos. A ler e reler. E guardar dentro do peito.


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