Um conto de Natal em Missirá 

Esta noite coube-me fazer segurança. Estou prostrado no meu posto. Todas as posições são desconfortáveis. Não se vê um palmo. Atravessar a noite é tudo o que tenho. Imagino que as estrelas no céu são mais frágeis que eu. Como uma sombra acompanha-me a tranquilidade do medo. Escuto os ruídos do mato com a mesma atenção tensa com que escutava os estalidos do soalho de madeira do quarto sob o peso dos teus passos. Não quero esquecer-me de ti, nos primeiros meses tinha medo que o esquecimento me anestesiasse. 
Faltam 87 dias para acabar a comissão. Parti com bilhete só de ida. Nunca mais volto cá, nem quando o Cabral se sentar no Palácio. Não terei saudades. Deixei de acreditar que se luta pela Pátria na Guiné. Todos contam os dias para se irem embora e eu deitado no capim esta noite. A ceia foi ração de combate, comida em silêncio com os camaradas. Em silêncio cada um assumiu o seu posto. Fotografia de uma noite de consoada: homens deitados, desmobilizados de alegria, a marinar na solidão.
Faz três dias que comprei o presépio em Bafatá. Maria, José, o Menino, peças toscas de barro. O calor é brutal, lábios secos, farda suada e nós em progressão lenta naquele mato. Explosões de som cavo. Trararaaaaa.Traaaaaaraaaaaaa. O terror abre a boca e morde com balas. A dor entrou em perpendicular. “Dá-me um tiro na cabeça, não quero ficar assim partido toda a vida”. Há que sair daquele mato e chamar um helicóptero redentor. É um ferido grave. Agoniza entre granadas, cartucheiras, esteiras tudo os guerrilheiros abandonaram. Os olhos dos homens embaciam-se, um cacimbo que vem do fundo da alma. O alferes morreu em capítulos. O primeiro foi ser recrutado.

Desde o início de Dezembro que de Lisboa chega fruta cristalizada, figos, broas castelares, pinhões. Hoje chegou um bolo rei que arrefeceu a bordo do avião de Bissalanca para Bambadinca. Cercados pela guerra a única liberdade que os homens têm é a de evocar avidamente a saudade e repetir rituais. Couves, batatas, bacalhau, fritos para os que ficaram a consoar na tabanca. Jogar ao rapa. Em Missirá muçulmana não houve missa do Galo, mas os cristãos rezaram na mesquita para louvar “o profeta cristão” e pela paz na Guiné. Acreditamos no que precisamos, não é?
Quase consigo ouvir o teu riso largo que ilumina tudo à tua volta. Fechos os olhos e chega-me às narinas o aroma da cozinha da mãe. É o meu segundo Natal neste país de terra vermelha com cheiro a manga, medo e sangue. Lágrimas aquecem-me o rosto. Um homem também chora. Porra.

Atravessar a noite é tudo o que tenho. O céu voltará a existir horas depois. Ninguém morreu nesta noite de Natal. O maior dos milagres.

(baseado em factos reais) 


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