“Sobrechão”

Contemplo a dança da luz sobre as flores das acácias. Deslumbro-me a olhar para o céu que parece dizer karingana wa karingana, eu vou contar um conto. Quase todas as fábulas ou nganos, contos tradicionais moçambicanos passados oralmente de geração para geração, começam assim. Os moçambicanos são dados a histórias, a nganos. Talvez porque estes lhes permitam voar para além do quotidiano. 

Baixo o olhar. Comprei mangas doces e sumarentas para a sobremesa. Depois ao ver a mamana sentada no passeio, pensei que a minha sobremesa é “sobrechão” de tantos.  Gosto desta porta de entrada para o país  que são os vendedores de berma de estrada. “Rumbu unga holovi, zwa hata zwinwane”, diz-me afável. Peço pela tradução: “barriga não te zangues, aguenta com a fome, pois a comida ainda há-de vir, demore o que demorar”. Foi o pai, mineiro no Djoni ( Joanesburgo) que lhe repetiu vezes sem conta esta frase. A fome precisa por vezes do confortável desespero de uma certeza. “Ajudou-me”. A mim iluminou-me a tarde que já ia bonita. A vida é demasiado preciosa para ser desperdiçada num mundo desencantado e sem esperança. 

   
    
    

   


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