Recantos do Natal

1. Como falar do Natal? Evitar o tema porque ele está carregado de lugares comuns? Maldizer a sociedade de consumo? Apontar o dedo às ceias onde se contam as horas para que acabe?

Não esperem isso de mim. O Natal é um tempo aconchegado. Das minhas consoadas portuguesas e alemãs, com bonecos de neve e a dita a bater levemente, tenho recordações felizes ou imaginariamente felizes. Quando eu estivesse a dormir o Menino Jesus ia nascer à meia-noite e no aniversário dele deixava-me presentes à mim do sapatinho. Recordo à espera ansiosa pela manhã seguinte e as missas do galo.

2.”Praeparatio adventus Domini”, preparai a chegada do menino-deus, foi e é horizonte dos meus dias em Dezembro. Para além do “kitsch”, dos brilhos, do gozo dos prazeres da mesa ( poucos sabem mas os cristãos antigos jejuavam no tempo do advento, tal como na quaresma), há o mistério. Há esses instantes de vertigem em que, como escreveu Kafka, “um machado quebra o mar gelado que há em nós”. Essa é a essência do Natal, o amor, um amor profundo que não é uma espécie de cordão que ata seres com um nó lasso, mas um cordão que os atravessa por dentro e o prende aos outros.

3. Em minha casa convivem o menino Jesus dos sapatinhos, exposto em presépios que trouxe de todos os recantos do mundo (alguns com onças e lamas em vez de vaquinha e burrinho) e esse velhinho simpático que é o Pai Natal. A ceia deixou de ser apenas bacalhau e mil variedade de sobremesas (ai rabanadas tão aguardadas durante todo o ano) e integrou tradições  alemãs. Numa simbiose de culturas.

4. Por falar em simbiose, deixem-me escrever umas linhas sobre Natal moçambicano. Quando Samora Machel se tornou no primeiro presidente de um país que acabava de conquistar a independência, em 1975, o Natal foi “proibido”. Era uma marca da presença portuguesa, incompatível com o “novo homem” socialista. No entanto o 25 de Dezembro, rebaptizado como “dia da família”, manteve-se como feriado ( e certos aspectos da tradição natalícia, como a troca de presentes, foram reavivadas por decreto nos anos 90). Hoje quando se percorrem as ruas de Maputo há árvores de Natais em todas as lojas, gorros vermelhos, iluminações e a missa do galo regressou ( não à meia-noite por causa da insegurança).

Um dos mais belos contos de Natal moçambicanos que conheço foi escrito por Mia Couto, trata-se de “O menino do sapatinho”. Todos os anos me deslumbro com ele. Partilho um fragmento. ” Ela sabia que os anjos da guarda estão a preços que os pobres nem ousam. Até que se o ano findou, esgotada a última folha do calendário. Vinda da Igreja, a mãe descobriu-se do véu e anunciou que iria compor a árvore de Natal. Sem despesa, nem sobrepeso. Tirou à lenha um tosco arbusto. Os enfeites eram tampinhas de cerveja, sobras da bebedeira do homem. Junto à árvore ela rezou com devoção de Eva antes de haver a macieira”.


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