No abismo do silêncio

12316679_10203510412639353_7890258422750585780_n.jpg

Cada época cria os seus proscritos. Numa era em que se vive como o coelho da Alice com pressa, sempre com pressa, num mundo que nos atropela, quem se importa com o outro e o que ele sente parece ser portador de uma doença contagiosa. Ou alguém contramão.

Há uma canção de Vanessa da Mata que tem o seguinte verso : “Não me deixe só/ Eu tenho medo do escuro/ Eu tenho medo do inseguro/ Dos fantasmas da minha voz”. Qual de nós não tem o seu “medo do escuro” ? E o seu momento de desamparo? E porque nos é então tão difícil colocarmo-nos na pele dos outros?

Estava sentada a tomar café no trabalho quando uma colega me perguntou se me podia fazer companhia. Entre um café e um cigarro uma conversa que eu julgava improvável. “Ele acabou comigo por SMS”. Não sabia que era que era possível aos cinquenta anos alguém pôr fim a uma relação por mensagem, pensava-o coisa de adolescentes. Para a minha colega desabou o mundo.

As relações chegam ao fim, por vezes sem causa nenhuma, e o amor não pode ser domesticado. “O amor nunca é uma dependência, é uma abundância “, escreveu Inês Pedrosa no belíssimo “Nas tuas mãos”. Por vezes à entrega segue-se o escoar-se da paixão por entre os dedos. Há quem pratique a paixão como método de alheamento ou como uma fuga de si. Tudo isto é legítimo. Agora por mais que me esforce não consigo entender a cobardia, a falta de carácter, de alguém que não olha o outro nos olhos no momento de terminar um amor.

Não há manuais para por fim a um amor, mas há dignidade, o calçar os sapatos do outro. A ausência das palavras de alguém de que se foi íntimo, a falta de um ponto final na história fere mais do que o abandono, a traição ou a privação da pele do amante. Para fazerem o luto de uma relação é preciso uma conversa. Dizem que a isso se chama coragem, eu diria que há cirurgias reconstrutivas para tudo, menos para o carácter (ou para a falta dele).

Atraio frequentemente pessoas que me contam as suas histórias pessoais, mais ou menos dramáticas. Não as pré-selecciono, algumas “conheço-as” apenas do Facebook. Em todas estas vozes encontro algo em comum: a solidão acompanhada, a vergonha de falar de dores, de sentimentos, de expor fraquezas e por vezes o evitar a vida. Uma dessas pessoas, um homem, disse-me “o que doeu mais foi o silêncio e o não havido um abraço à despedida depois de tantos anos”. A separação nunca será fácil, porém há sempre a escolha entre ser-se pessoa ou ser-se um traste.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s