Mulheres de barro

 

reinata_sadimba

Entre as recordações mais felizes do meu tempo de escola contam-se as horas em me permitiram ser ceramista, sujar as mãos de barro, tocar a terra na sua essência e dar-lhe forma, como uma qualquer deusa menor. Deslumbram-me os ceramistas e fascina-me a moçambicana Reinata Sadimba. Pela obra, pela vida.

Nasceu no Nimo em 1945, uma aldeia, de Cabo Delgado, que não vem no mapa. Muito menina aprendeu com a mãe a mexer no barro e moldá-lo , torná-lo panelas, pratos e colheres ornamentadas com marcas iguais às que a sua tribo traz no rosto. Cresceu, casou, teve filhos.

O tempo da guerra foi uma “cartografia de deslocamentos” sendo a única escolha possível a sobrevivência. Durante a luta pela independência esta mulher maconde transportou comida e armamento para a Frelimo. “Em todas as guerras do mundo nunca houve arma mais fulminante que a mulher, mas é aos homens que cabem as honras de generais”. A euforia da liberdade trouxe a separação do marido, Reinata Sadimba ficou sozinha a lutar pela sobrevivência, sua e dos filhos.

Pediu conselho aos antepassados, que em Mocambique são uma espécie uns binóculos que dão sentido às coisas, ao emprestarem-lhe uma nitidez que está muito para além da realidade. Os antepassados em sonhos disseram-lhe. “Reinata, levanta-te vai fazer barro”. Começou a esculpir mulheres de olhos rasgados, corpo tatuado e mãos grandes, “estranhas formas” que faziam rir as outras mulheres da aldeia ou criticá-la pelo gasto desnecessário de barro. Antecipavam-lhe o fracasso como é apanágio dos que temem o diferente.

Enganavam-se, porém, os que pensavam ser aquele o seu destino. Porque não há um só destino, há sempre um destino atrás do outro. Um grupo de suíços que estavam em Mueda, encontraram Reinata na sua aldeia, compraram as esculturas e fizeram-nas chegar a uma galeria de arte. Hoje o seu nome é para a cerâmica o que Malangatana foi para a pintura. Imenso. Reinata Sadimba é considerada uma das mais importantes mulheres artistas de todo o continente africano. Recebeu prémios e distinções – na Bélgica, Suiça, Portugal, Dinamarca – e as suas obras estão representadas em várias instituições como o Museu Nacional de Moçambique, o Museu de Etnologia de Lisboa, ou a sede das Naçoes Unidas. As suas mulheres de barro estão presentes em inúmeras colecções privadas em todo o mundo como a colecção de Arte Moderna da Culturgest e a colecção Sarenco.

PS- “Em todas as guerras do mundo nunca houve arma mais fulminante que a mulher, mas é aos homens que cabem as honras de generais.”,  Paulina Chiziane,  in Ventos do Apocalipse

Estarei nos próximos dias de novo pelo Índico, tenateri contar histórias.


2 thoughts on “Mulheres de barro

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s