Ensaio breve sobre a cegueira

O meu primeiro contacto pessoal com um cego foi na Associação de Deficientes das Forças Armadas, em 1994. Um militar, cujo nome não vou citar, que era na altura um dos responsáveis pelo jornal da ADFA. Não nasceu cego, perdeu a visão devido ao rebentamento de uma granada durante a Guerra Colonial. Tinha um sentido de humor cáustico e a capacidade de se rir de si próprio e da sua condição. Lembro-me de uma vez caminharmos de braço dado pelo corredor da instituição, e eu, uma guia distraída, não evitei que ele chocasse contra um sofá no corredor. “Então e o cego sou eu?”. Com ele percebi que olhar para a deficiência como a falta de um sentido é um modo pobre de ver as coisas. É um mundo diverso, mas com todas as possibilidades de viver uma vida plena.

Com aquele militar que trazia no corpo a marca da guerra falei de “O Pequeno Príncipe” –  e nenhum de nós era miss –  e de como “o essencial é invisível aos olhos”. Aliás, para quem queira fazer o seu próprio ensaio sobre a cegueira sugiro começar por reler este livro de uma complexidade extraordinária sob uma aparência de uma grande simplicidade.

Ser cego não é não ver o mundo, mas estar fechado ao que é diferente de nós, ao que é mais forte do que nós.

A vida é sempre surpreendente quando não temos medo dela. Não são precisos olhos para ver claro.


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