Avarias

Não existe nada mais capaz de estimular a imaginação humana do que uma avaria no carro. Acompanhem-me.

Esta manhã, depois dos rituais que contribuem para um spa da alma – traduza-se tomar um café no lugar habitual e ler umas páginas do romance A Irmã de Sandór Marai, um livro intenso e delicado – peguei no carro para ir o trabalho. Ouço o meu CD preferido que condensa o amor nas teclas do piano.

A meio da Godesberger Allee, estrada conhecida como a pista de corrida dos diplomatas na altura em que Bona era capital da Alemanha, e em hora de ponta, o pedal do travão bloqueia. De seguida o pedal da embraiagem. Puxo o travão de mão, desligo o motor e ligo os quatro piscas. Saiu-me um “JESUS”, o clássico apelo a um poder mais elevado ignorando-se os trâmites normais e todas as instâncias intermediárias santos, anjos da guarda, secretárias, seguranças, para ir directo em quem manda, ou pelo menos ao filho de quem manda.

Não fora um encadeamento de pormaiores não teria uma história para contar. Ora vamos lá. Abro o porta bagagens, visto o colete florescente, procuro o triângulo. Se o carro é o castelo de um individuo do sexo masculino o meu é estilo uma caverna de Ali Baba, livros nos bancos traseiros, maquilhagem e no porta bagagens, objectos dispersos que vão da coleira da cadela até um tridente vermelho do Halloween  passado . Do triângulo nem o menor rasto.

A minha tranquilidade para me concentrar a busca do triângulo perdido teve a mesma validade dos amores de Verão, que como é sabido não duram mais do que a marca do biquíni. Com o devido aparato de sirenes e luzes azuis estaciona atrás de mim a Polizei. Do carro saem três agentes armados até aos dentes, colete à prova de bala e semblante cerrado. Uma descrição aproximada? Imaginem alguém com cara de vestido abotoado até ao pescoço que se prepara para ter uma conversa acerca de sexo.

“O que faz parada em frente a este objecto?”. “Objecto?”. Olho à minha volta e reparo que o carro se deteve à porta da Bund der Vertriebenen, associação que está classificada como potencial alvo de um ataque terrorista.  Ontem houve duas ameaças de bombas em Bona, que se revelaram falsas, e os nervos estão à flor da pele.

 

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Inspiro, a idade vai-nos tornando mais sábios e coloca as coisas em perspectiva. Sei que entre os elementos capazes de facilitar a vida social, o sorriso é número um. Sorrio aos polícias, levo-os a ver os pedais bloqueados, mostro no telemóvel a chamada feita para o automóvel clube e ofereço-lhes chocolate (ando sempre com uma reserva chocolates Lindt no carro). Porque a natureza humana em toda a parte é a mesma, desanuviam-se os rostos, aceitam os chocolates.

Começamos falar da contagem decrescente para Natal, acabamos em Kipling e no filme, dos anos 30,  Gunga Din  o bhishti, carregador de água, que sonhava tornar-se soldado da rainha na Índia colonial.  Parêntesis: tenho o melhor anjo da guarda que pode existir, só assim se explica que se cruzem no meu caminho polícias giraços e capazes de reconhecer o livro de poemas de Rudyard Kipling, deposto no banco traseiro. Tenho uma amiga que diz n que o meu anjo da guarda “é o cara mais bem treinado da tropa de elite de São Pedro”. Fechar parêntesis.

Estávamos nós neste interregno bem disposto – a falta do triângulo não foi notada ou terá sido generosamente ignorada – quando chegou a viatura de apoio do ADAC. O meu carro recusou-se a colaborar – e não, não é um Volkswagen – e teve de ser chamado o reboque. Agora imaginem uma mulher vestida de forma irreconciliável com uma avaria: vestido justo e escarpins negros, com um salto de dez centímetros, a descer a rampa do reboque de mão dada com o mecânico. Isto depois de ter exercitado os bíceps e tríceps no volante (abençoada direcção assistida).

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“Não se importa que eu abra a janela?”, diz-me o gigante simpático que conduz o reboque. “Não” (estão 12 graus, um calor imenso para Novembro na Alemanha). Enregelada e despenteada chego à oficina onde a morte do meu cilindro de embraiagem é declarada oficialmente. RIP.

Sentada no carro de substituição penso em linhas paralelas e prolongadas até ao infinito. Nunca se encontram. Isto porque numa associação de ideias,  que Freud saberá explicar melhor que eu, me lembrei do filme a “Testemunha” onde Harrison Ford interpreta o detective John Book , um homem cínico e Durão, e se apaixona por  Kelly McGillis, uma viúva amish. É um amor sem futuro, ambos sabem que nunca poderão ficar um com outro, mas amam-se durante o tempo de uma dança, ao som de um rádio de pilhas, em torno do carro avariado. Não é preciso sair de Bona para viajar.

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