Yes, nós queremos banana 

  
Quase todos gostam de bananas, mas não pelas mesmas razões. Lembrei-me disto no supermercado quando estava a comprar bananas. Fora da Alemanha poucos a associam à queda do Muro. E à nitidez das coisas humanas por oposição à distopia. Na viagem da memória a ordenação dos acontecimentos ensaia uma explicação sobre nós mesmos. Compreender a Alemanha e o seu presumível mundo individual passa pela banana.
Uma anedota que se contava na República Democrática da Alemanha é a seguinte: “como se consegue duplicar o valor de um Trabi (Trabant)? Enchendo-lhe o depósito. E triplicar? Colocando uma banana sobre o tablier”.

Qualquer outro fruto onde o sol do sul tenha pousado poderia ter sido o fruto da revolução. Ananás ou pêssego eram escassos na RDA. As laranjas viajavam de Cuba e chegavam em tal estado que eram conhecidas como “ a vingança de Castro”. Porquê então a banana? Vamos abrir os gomos do tempo.

Passada pouco mais de uma década sobre o final da Segunda Guerra, ainda o Muro não partia Berlim, o então chanceler da RFA Konrad Adenauer celebrava uma vitória. “ A banana é uma esperança e uma necessidade para todos nós”. Corria o ano de 1957 e o democrata-cristão assinava os Tratados de Roma com uma condição: que a importação da banana não fosse sujeita a taxas alfandegárias. A exótica banana tornou-se num símbolo do milagre económico alemão e do novo bem-estar.
Também o SED, o partido único na RDA, reconhecia a importância da banana, um fruto raro e caríssimo, em 1972 numa reunião do Politiburo declarou-a (ou melhor declarou a falta de banana) assunto de Estado.

No ano de 1989, quando a RDA já estava meia morta, Günter Schabowski – o homem cuja gaffe fez cair o Muro – terá confidenciado a uma jornalista, que durante uma reunião do partido, alguém terá sugerido a fórmula para travar o descontentamento popular: “Podemos dar-lhes bananas!”.

Visto de fora pode até parecer bizarro, mas nos dias que se seguiram à queda do Muro uma das imagens mais repetidas pelas televisões, jornais e revistas da RFA era a dos alemães de Leste a comerem bananas. Sabiam a liberdade, a um mundo sem moldura.
(republico este texto de 2011 em função da actualidade política portuguesa) 

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