Levante-se lá do sofá 

Cada texto que se escreve é uma carta que se transforma e se realiza a partir da singularidade do olhar do destinatário. Como jornalista, ao tornar-me narradora de vidas, aprendi que a vida é feita de acontecimentos, de momentos incontroláveis, mas também da forma como se olha para ela.

Perdi a  paciência com pessoas que  aos 30, aos 40 anos, acham a sua história medíocre por culpa do mundo e acham que não têm nada a ver com isso. Repetem a mesma história como um CD riscado, uma e outra e outra vez. A culpa é dos pais, ou da infância, ou do chefe ou dos colegas. Foram ensinados ou convenceram-se que merecem tudo, seja lá o que for que desejarem.  Sem esforço claro. Ainda não aprenderam que a vida é para os insistentes e que génios ou sortudos são um grão de areia na orla da praia.

No fundo este tipo de pessoas não quer de facto mudar nada, diz que quer mas que não consegue por motivos externos à sua vontade, por circunstâncias que não controla. Por medo do desconhecido, por medo de arriscar adotam o papel da vítima. E este é tão mais fácil de viver, desresponsabiliza. Não podemos ter a ilusão de controlar tudo, mas podemos fazer escolhas, abrir mão da cobardia. Com medo do sofrimento vivem uma vida anestesiada. O que os impede de viver a vida não são os outros, é receio de se partirem em cacos. Como escreveu Adélia Prado “uso todos os meus cacos para fazer um vitral”. Cada um de nós é um vitral feito dos nossos fracassos e superações. Entre ser vidro inteiro e monótono e ser vitral pleno de possibilidades a escolha é nossa e só nossa.
Quando se viaja por geografias bem mais desconfortáveis do que a nossa podemos horrorizar-nos e egoistamente respirar de alívio por jamais sermos os protagonistas destas histórias.

Conheci no Sudão do Sul um menino de 11 anos que vivia num dos campos de refugiados de Juba. Esse menino pedia a todas as pessoas que visitavam o campo, de ONG a jornalistas, que lhe entregassem garrafas de água cheias ou vazias. Não pedia dinheiro, apenas garrafas de água. Depois colocava-se na fila durante horas, enchia as garrafas de água no camião cisterna e vendia-as no campo. “Quero estudar, este dinheiro é para isso”. Onze anos e a sabedoria de um mestre.

Assumir  a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. É ter dúvidas  e ter de responder pelas escolhas. A vida nunca será justa, mas é demasiado breve para ser desperdicada a apontar a sua injustiça. Levante-se lá do sofá.


4 thoughts on “Levante-se lá do sofá 

  1. Concordo consigo, a apatia, mascarada pela culpabilização em tudo e em todos, excepto em nós próprios, é um dos nossos maiores males. Até para ajudar os outros, nos cingimos a clicar nos Likes.

    (Gosto muito da mudança de visual, mas enquanto leitora, confesso que o cinza claro sobre fundo branco me faz doer os olhos. Não sei se serei a única com este problema.)

    Abraço.

    Liked by 1 person

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s