O suicídio dos polícias 


É um testemunho corajoso. O de alguém a um quase da morte e que fala de um país desconhecido para a maioria dos portugueses: o quotidiano dos polícias. Não choca pela novidade, mas pela crueza.
António tentou suicidar-se. Entre ele e os ideais que fizeram dele polícia instalou-se um abismo.
“Na minha cabeça os polícias existiam para isso: proteger, ajudar e socorrer”. Depois, a experiência profissional de 30 anos esvaziou de significado o idealismo. Chamar-lhe desencanto é pouco, chamar-lhe desgaste não basta. É mesmo desamparo e incompreensão e é preciso falar disto porque não há kevlar que proteja a alma.

Este ano, entre elementos da PSP e da GNR, mataram-se 12 pessoas, sendo que na última semana e meia puseram termo à vida três agentes da PSP e um militar da GNR, recorrendo à arma de serviço.

Não há barreira física, visível entre o país dos polícias e o nosso. Mas ela existe. Para perceber esta realidade invisível, ou deliberadamente colocada na sombra, é importante tê-la contada pelo olhar de um policia e por isso as palavras de António são poderosas.

Não há dias comuns quando se escolhe esta profissão. Toca-se a cada dia o abjecto e assiste-se a um sofrimento para além da conta. “Uma vez entrou-me pela esquadra dentro, a meio da noite, uma mulher com uma sobrinha de três anos pela mão, que tinha acabado de ser violada pelo tio, e na altura eu tinha uma filha com essa idade”. A farda não protege desse músculo que se traz no peito, nem do sal das lágrimas. A dor atravessa a roupa.

“Lidamos com coisas que nos marcam o resto da vida. Ainda não estava há um ano na polícia e não morri por milagre. Houve um assalto muito grande e, por descoordenação das chefias, correu tudo mal. Eu estava atrás de um muro com outros dois polícias e deu-se uma explosão muito grande. Tive a certeza absoluta que ia morrer e os meus ouvidos estouraram. Quando recuperei a consciência estava debaixo dos escombros e um colega meu, que tinha entrado no edifício, morreu.”

Na polícia um mundo de “homens fortes”, que não é “para meninas”, nem “para mariquinhas” não se fala emoções, nem de dor, tem-se vergonha dos colegas, das chefias, vergonha de se “ser fraco”. Conheço polícias que noite após noite se recolhem aos quartos para tecer as suas colchas de solidão e desamparo. “E estas coisas não se partilham na polícia. Com ninguém. Porque se uma pessoa se queixa ou fala no assunto, o que ouve, sobretudo das chefias – que supostamente deviam apoiar os seus homens –, são coisas do género “você quando veio para cá já sabia que era assim” ou “a porta da rua é a serventia da casa”. Cheguei a ouvir isso a comandantes quando dava a entender que alguma coisa não estava bem”.

Não há como visitar o país dos polícias sem ficarmos com marcas. No pais deles não há saídas de emergência, há muitas nuances de cansaço e muitos infernos pessoais silenciados.”Durante 20 anos não parei em casa. Ingressei num dos corpos especiais da polícia e às vezes estava aos 15 e aos 20 dias fora, a viajar pelo país. Não vi os meus filhos crescer. Só ia a casa de vez em quando e quando aparecia tinha de dormir para poder voltar ao trabalho. É por isso que muitos polícias se divorciam. Poucas mulheres aguentam”. Ao escutá-los, ao aproximar-mo-nos da sua dor, percebemos que somos mais semelhantes do que diferentes. As pessoas, e os polícias são pessoas, são todas parecidas. Querem chegar a casa ao final do dia, abraçar os filhos, a pessoa que amam, esticar-se no sofá, ver televisão, passar os olhos pelo Facebook, tomar um copo. Os pequenos prazeres que fazem esquecer a brutalidade do quotidiano. Alguém que usa uma farda é feito da mesma matéria que nós.

Mais violento do que a violência e o medo de errar, a pressão a que diariamente estão sujeitos, é olhar que se recusa a ver que essas mulheres e homens, que recebem salários baixos, cuja condenação pública ao menor erro é imediata, sofrem por detrás da armadura. “Estar na polícia foi piorando a minha maneira de ver a vida e a minha cabeça. A partir dos 38 anos, mais ou menos, comecei a andar muito ansioso e não tinha vontade de fazer nada. (…) Se houve algum acontecimento que pudesse ter desencadeado isso? Não. Foi o acumular de anos e anos de noites mal dormidas e em branco, de tensão, de experiências de trauma, de stress com a chefia. (…) como fui parar ao hospital, toda a gente soube do que aconteceu. Na polícia o ambiente é muito masculinizado e feito de homens que têm de ser fortes ou mostrar que o são. E a tendência quando alguém está com uma depressão é pensar: “Olha, aquele está maluco.” O psiquiatra dizia que, além de stresse pós-traumático resultante de situações de trabalho, evidenciava muitas marcas de maus-tratos por parte das chefias.”

Uma questão recorrente quando se fala com polícias é a “insensibilidade”, “impreparação” das chefias. Uma espécie de muro separa os “doutores”, aqueles para quem há “um futuro”, e os agentes “para quem há um caixão”. “As pessoas não calculam o que são as chefias intermédias actuais na PSP. Homens com 20 ou 30 anos de experiência são comandados por miúdos com 22 ou 23 anos acabados de sair do instituto e que não sabem nada da vida nem da profissão (…) Há comandantes que telefonam aos polícias que estão de folga a exigir que se apresentem ao trabalho no dia a seguir e ai de quem mostrar má vontade”.

A palavra suicídio tornou-se cruel demais para um tempo que oculta a sua brutalidade e para uma instituição que não admite falhas. Mas este é o tempo da verdade. Não são precisas hipérboles para perceber que algo não vai bem e que não se resolve com comunicados burocráticos do Ministério da Administração Interna. “Atento às circunstâncias de suicídio nas forças de segurança durante o ano de 2015, o ministro da Administração Interna teve reuniões de trabalho com o comandante-geral da GNR e o director nacional da PSP, tendo sido determinada a revisão do Plano de Prevenção do Suicídio Nas Forças de Segurança. Tal revisão tem como principais objectivos a adequação do referido plano ao contexto actual e o reforço das políticas activas da prevenção das práticas suicidas”.
O testemunho de António é um grito de socorro: para as chefias, para a sociedade, mas também para os camaradas. Estar fragilizado não significa ser fraco, mas ser humano. O falar de dor, de sofrimento, o chorar não fazem de um agente menos leal ou menos íntegro. Entre o ser gente e o ser pessoa basta às vezes um pequeno gesto, prestar atenção às coisas pequenas. Ou um olhar.
Em tempos li que a verdadeira felicidade é a paz interior conquistada pela consciência que não podemos mudar nem os outros, nem o mundo, mas está nas nossas mãos decidir como vamos lidar com os outros e com o mundo.


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