Acácias rubras

Os cabelos esvoaçam-me entrelaçados pelos dedos do vento primaveril.  Sento-me no miradouro da Avenida Fredrich Engels, antiga Avenida dos Duques de Connaught –  em homenagem a Artur, o sétimo filho da Rainha Vitória – que será talvez uma das mais belas da cidade. Plena de vermelho das flores das acácias e ampla varanda, propensa à contemplação, para a baía onde desagoam cinco rios. O mais a sul, o Maputo, deu nome à cidade no pós independência. Apesar da construção desenfreada e vertical, Maputo continua a seduzir pelas suas árvores que, como escreveu Mia Couto, encerram lendas e histórias. Diga-se o que se disser a beleza é uma das razões imateriais da felicidade.

As acácias, árvores típicas de Maputo, como muitas coisas nesta cidade, não são originárias do continente africano, mas vieram de Madagáscar. O nome botânico  é delonix regia, ou flamboyant. E de facto são rainhas histriónicas. 
Encontro-me num estado de encantamento quando chego ao Café Acácia, no jardim dos professores, ali ao lado do mítico Cardoso.  

  Saboreei o cappuccino, prolongando-lhe o prazer, e peguei no jornal. Li algumas notícias sem interesse e outras inquietantes: “Guerra”. Deixo-me contaminar pela estranheza e não sei porquê penso que talvez seja exagero, histórias do mato. Por vezes tudo o que se conta tem mais intensidade nas palavras do que na realidade. 

Ainda um pouco atónita com as notícias sou abordada por uma conhecida, de suaves feições e a beleza serena dos cinquenta anos, que não esperava encontrar. A nossa afinidade pedia-me paciência e fiquei a escutá-la. A conversa prolongou-se até tarde e acabou por tocar em memórias dolorosas. Pedi um café e uma água sem gás. Cada palavra dela parecia precedida de imensa negociação interior. Falou-me de solidão, da única filha que era pouco mais que uma vaga recordação lá longe em Portugal, da viuvez e da puta da vida que só é vida em África “onde há fragrância a caril e cardamomo”. Em Portugal, ela que nascera aqui em Moçambique, que ouvira as balas por cima da cabeça,  sentia-se presa numa jaula de excepcionalidade. Magoada com o que a vida lhe reservara, regressou. Com precisão de anatomista e persistência de mulher “fez-se”, afoita  fez “bizeness”, esconjurou  misérias antigas. Em Maputo, a Lourenço Marques da infância, encontrou a sua grande paixão, descobriu afectos soterrados. Perguntou-me se a achava excêntrica por amar ao final dos cinquenta como uma adolescente. Disse-lhe que noutras paragens seria personagem de cinema e que as acácias enrubescem todas as primaveras. Haja coragem para aceitar a felicidade cálida das paixões tardias. 

Quando voltei à Guest House, que traz o nome de Acácia Inn, fiquei a pensar em todas as conversas que tive à margem do trabalho que me trouxe aqui. Quase todas elas passaram pela solidão, pelas escolhas, pelos fantasmas que teimam em permanecer e pela coragem de fechar parêntesis ou abrir outros novos. Nem todos nascem para ser acácia. 

PS- Sou depositária de tantas histórias, pudesse eu contá-las. 

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