Os mortos

Mocambique-HFG

Convivem a paredes meias nos classificados dos jornais: a morte e o amor descartável, desse baratinho e sem qualquer réstia de beleza.

Confesso, sou viciada nestas secções. Leio os elogios póstumos separando-os nas categorias “de pacotilha” – circunspectos e aborrecidos, não mereceria o morto melhor? A dor paralisa? – e “de coração” – onde cabe toda a dignidade e a grandeza trágica da perda . Passo os olhos também pela secção dos vivos, ou melhor vivas porque o objecto destes anúncios são quase todas mulheres que fazem do diminutivo chamariz, “moreninha, cabritinha, meiguinha”. A linha que cose as páginas da necrologia e a dos anúncios de prostituição é a solidão, a solidão absoluta da morte e a dos vivos.

Sexo, morte e solidão sempre foram o alimento da literatura. Representam o que de mais visceral existe em nós e o que mais tememos.

Quando penso nos meus mortos, os jazem no cemitério, e os que “matei” em vida, recordo-me sempre de dois livros. Um para os “mortos,mortos”, “Campo Santo” do alemão W.G. Tebald, e de um extraordinário parágrafo.  “A lembrança dos mortos nunca tinha fim. Todos os anos, nas casas corsas, pelo Dia de Finados, punham-lhes a mesa, pelo menos deixavam alguns bolos no parapeito das janelas, como se para os pássaros famintos do Inverno, pois acreditavam que eles viriam a meio da noite comer qualquer coisa. Também deixavam à porta um alguidar com castanhas cozidas para os mendigos vagabundos que, na imaginação das populações sedentárias, representavam espíritos sem descanso. E como é sabido que os mortos têm cada vez mais frio, cuidavam de que o fogo na lareira não se apagasse até romper o dia”. A memória dos meus mortos – como o meu pai – nunca tem fim, mora em mim em cada golfada de ar que expiro.

O outro livro, que associo ao meus “mortos-vivos” – amizades que se diluíram, amores que se escolhe nunca mais voltar a ver , pessoas de que a geografia ou o tempo apartaram, pessoas de quem se gosta mais cujo maior respeito que lhe podemos demonstrar é a distância – foi escrito pelo espanhol Adolfo García Ortega, chama-se “O Comprador de Aniversários”. É uma obra belissíma inspirada por uma memória de Primo Levi. O grande escritor do Holocausto, ao descrever os seus últimos meses em Auschwitz, de um menino de talvez de três anos, a quem chamavam Hurbinek por ser essa a única palavra que pronunciava. Além de mudo, o menino estava paralisado em consequência de uma das sinistras experiências do doutor Mengele.  Hurbinek, descreve Levi, tinha “uns olhos que dilaceravam atrozmente os vivos”. Através deles transpareciam o desamparo, o medo, a dor e a solidão do Läger. O menino morreu no inicio de Março de 1945, “livre mas não redimido”.Primo Levi ajudou a sepultá-lo-lo debaixo de uma árvore . Mais tarde escreveria : “nada resta dele: o testemunho da sua existência é estas minhas palavras”. Pegando na curta vida deste menino a quem lhe foi raptado o futuro – que é a história de mais de um milhão de crianças mortas nos campos de terror nazis – García Ortega constrói-lhe um futuro, um não vários, traça-lhe uma memória.  Em cada um dos quais uma data de aniversário celebra a sua passagem pelo mundo.  O menino tanto poderia ser um cenógrafo russo como, um maestro búlgaro, um fotógrafo israelita…Caleidóscópio de possibilidades.

Penso nos meus “mortos-vivos” a cada aniversário deles, nalguns com uma saudade funda e mesmo  ternura pelo que partilhámos, noutros com alívio pela separação. Quando fico melancólica obrigo-me a olhar para a vida como um jogo de cartas. Se não temos um rei ou um ás não faz sentido ficar a desejar um rei ou um ás. É preciso aprender a jogar com as cartas que temos, mesmo que o let it go fira. Há liberdade maior do que deixar partir o outro, mesmo que ele fique em nós?

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