Não lhes devemos candura

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Quase todas as mulheres que conheço passaram já por um ou mais episódios de violência. Seja sob a forma de assédio, seja psicológica ou física. Contactos físicos, insinuações ou gestos violentos e a sensação de nojo e impotência são experiências diárias .

Conto a história na primeira pessoa. Recebo com demasiada regularidade mensagens lúbricas referindo-se ao meu aspecto físico, algumas acompanhadas de um “argumento”: fotografia de um pénis erecto. Não é a banalidade do mal ou a impunidade por detrás de um perfil, falso ou não, é a boçalidade do mal. A primeira baixa na era das redes sociais é o pudor e o confundir abuso com direitos ou com “autenticidade “ ou “liberdade”. Sendo uma mulher madura não é o pénis em si que me perturba, mas a violação da minha intimidade, o abuso de confiança e a supressão da minha auto-determinação sexual. O facto de eu estar activa do Facebook e ter uma caixa de mensagens aberta não é uma autorização para “dizer tudo”. Quando eu – ou qualquer outra mulher – desejar ver um falo erecto será onde, quando, como e com quem eu quiser.

Outras pessoas sentiram-se no direito de me ameaçar fisicamente. Por causa da crise grega recebi de um desconhecido a mensagem “ se te vejo na rua apanhas uma carga de porrada”, seguida de um chorrilho de ofensas. O botão de bloquear permitiu-me simbolicamente eliminar aquela existência. Mas a intolerância e ódio causaram-me uma perturbação profunda. Como é que as pessoas são capazes de exercer a sua crueldade e deixar claro o orgulho desse ódio ? Usaria a mesma linguagem se falasse com um homem?

Outro episódio. Há poucos dias conversava virtualmente com um homem que conheço pessoalmente e bem (julgava eu). A conversa azedou e aquela pessoa com quem eu trocava habitualmente amenidades bem-educadas, ameaçou-me com “se estivesses ao pé de mim levavas uma chapada no focinho”. Estas palavras que em si já seriam graves , pela sua violência obscena, pela linguagem usada, ganham uma outra dimensão por terem sido proferidas por alguém cuja missão é servir o Estado português e garantir a segurança dos seus cidadãos. A pessoa em causa acabaria por me pedir desculpa, frente a frente, porém ali se quebrou um pilar fundamental da convivência: o respeito. Pelas ideias do outro, pelo corpo do outro, pela liberdade do outro.

A sociedade portuguesa sempre foi atravessada pela violência contra a mulher. Ecos da ditadura e da sua visão da mulher continuam demasiado presentes. Não é preciso recuar muito no tempo para encontrar no Código do Processo Civil , de 1939 e que esteve em vigor até 1967, o poder concedido ao marido de requerer a entrega e “depósito”  judicial da mulher casada. Este possibilitava ao marido, em caso de saída da mulher da casa familiar, exigir judicialmente que ela fosse aí compulsivamente “depositada” em sua casa, como se fosse um objecto. O conceito de “chefe de família” introduzido em 1967 e abolido após a revolução continua a vigorar em muitas cabeças, deles e delas. Sob o pretexto que “as mentalidades demoram a mudar” continua-se a condescender perante os abusos diários de que as mulheres são vítimas. Por semana a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima  (APAV) recebe cerca de 130 pedidos de ajuda, que são apenas a ponta do icebergue da violência de género em Portugal. No momento em que escrevo foram assassinadas 25 mulheres às mãos dos homens que amaram. Cada uma destas vítimas representa milhares de outras  – em 2014 a APAV recebeu quase 17 mil queixas por maus tratos físicos e psíquicos  – que ainda não foram mortas, mas que são intimidadas, humilhadas, espiadas, agredidas, dia após dia. Oitenta e nove por cento dos casos que chegam a tribunal acabam com pena suspensa ou arquivamento dos processos instaurados. A “chapada no focinho” ainda é uma bagatela em Portugal.

“Portugal ensina as mulheres a amar e a sofrer a fundo perdido. E abandona-as, pura e simplesmente, às mãos dos homens que as destroem como brinquedos gastos”, escreveu a Inês Pedrosa.

Recuso o fatalismo. É preciso desestigmatizar a assertividade e o desagrado feminino. Quebrar com a candura. Uma mulher não pode ser educada apenas para ser simpática, cordial e subserviente, nem deve aceitar o paternalismo nas cabeças: por que raio se diz que “Merkel tem tomates”? Já alguém disse que Putin tem as  mamas no sítio? Ou porque nos referimos às filhas como “marias-rapazes”?

Em tempos entrevistei uma mulher que foi violada repetidamente por vários militares. Crime de guerra. Raras vezes as vítimas de violação têm a coragem de falar do seu martírio. Querem esquecer. A F. contou-me detalhadamente como a atiram para o chão, lhe rasgaram a roupa e um após outro se serviram dela. Uma e outra e outra vez. Sentiu o abraço da humilhação, uma dor mais lancinante do que o sangue que lhe escorria entre as pernas. Contou-me, e muito ficou dito nos espaços entre uma e outra palavra, que se sentiu impura, um pedaço de lixo. Confiou-me as suas lágrimas e eu estremeci de raiva, de impotência e chorei com ela.  Anos mais tarde numa viagem de trabalho sofri uma tentativa de violação, que não se consumou por me ter debatido com quantas forças tinha.

Em 2012 um deputado conservador espanhol afirmou publicamente que as “as leis são como as mulheres, existem para ser violadas”. Estremeci de raiva. Ainda pensei ignorar a boçalidade, a perfídia do comentário, mas ele espelha o que vai na cabecinha de alguns machos ibéricos:  a mulher é um objecto e reduz-se a uma vagina. De preferência sempre disponível. Em 2015 o vice-primeiro ministro português referiu-se às mulheres usando uma fórmula saída da melhor cartilha salazarista.

Que mulheres continuem desamparadas, amedrontadas e a morrer às mãos dos companheiros, maridos e amantes é miserável. Que as organizações que as tentam a ajudar se deparem com estrangulamentos financeiros é miserável. Que as autoridades por falta de meios ou de formação não as possam proteger é miserável.

Eu quero  lá  saber das “pancadarias” entre simpatizantes do PS e do PDS, o que eu queria mesmo era ver os candidatos dizer uma palavra sobre este assunto.

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8 thoughts on “Não lhes devemos candura

  1. Vivi e vivo coisas do mesmo género. Estou consigo: isto de homens e mulheres, vistos assim como coisa generalizada, não é bom. Mas que há eles e elas – parece que são muitos, mas se fossem poucos o mal era o mesmo – que vivem a vida inteira com um torcicolo na mente… lá isso parece que sim. E sabe o que é que às vezes me incomoda? É não darem por isso ou não se importarem! E falam falam falam chorrilham chorrilham chorrilham disparates e coisas abjectas como se cantassem hinos à pureza, à bondade, à beleza, à verdade… Será que é preciso não ter voz para ouvir melhor?

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  2. Gostei de ler, fez-me lembrar juntamente com os comentários que vou lendo por essas redes sociais fora, que ainda somos um povo de mentalidade pequena, um triste país onde tanto se crítica os hábitos e costumes de países muçulmanos por serem restritivos nos direitos das mulheres e depois cá tanta gente continua a ter uma mentalidade como já ouvi dizer “conservadora” em relação aos mesmos direitos e liberdades da mulher. Não é uma mentalidade conservadora, é retrogada, indecente e pré histórica. Ohhh hipocrisia e egoísmo maldito.

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  3. Excelente e certeiro texto, Helena; tomara eu não o entender tão profundamente…A violência contra as mulheres é uma constante, em todos os níveis sociais. As “amostras” do sexo até acabam por parecer pueris à mulher madura que também eu sou (e aturei dessas “amostras” em comboios e esquinas de rua desde os dez anos de idade) diante do desrespeito meta-físico de certos senhoritos da nossa melhor sociedade.E obrigada pela citação 🙂 escrevo e escrevo e escrevo na esperança de que alguma palavra faça avançar um bocadinho o mundo, mas está difícil. Parabéns e que nunca a voz lhe doa.

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