A pulseira

Acordou com a pulseira a magoar-lhe o pulso.

É um belo trabalho de prata e âmbar, comprada em Setembro ao entardecer, numa loja de porta fechada em Varsóvia, daquelas para turistas dispostos a gastar mais que o habitual e com tempo para escutar histórias. O dono da loja meteu conversa. Disse que os marinheiros antigos queimavam o âmbar como protecção contra monstros dos abismos oceânicos e as serpentes marinhas.

De pulseira acariciando-lhe a pele, caminha com passos de menina, senta-se num terraço a beber chá, numa hora de fronteira entre o dia e o seu final, nostálgica e com a suavidade do damasco. Embrulhada no escuro entrega-se à fogueira que traz dentro. A alma despe a roupa e mergulha nas memórias, com uma imensidão que dá vertigem. Apaixonou-se por um homem que veste o silêncio, como algumas pessoas vestem totalmente de branco ou de negro.

Durante muito tempo ficou a pensar o mistério por detrás daquele silêncio. Uma geografia de afectos depurada? Como se sabe imaginar é um exercício perigoso, tem a particularidade de fazer acreditar no que se imagina, cria-se um curioso diálogo entre a imaginação e a realidade. E é tão difícil de deixar de acreditar. Por vezes o silêncio não é a ausência da fala, é o dizer-se tudo sem nenhuma palavra. Só por vezes.

Com a suavidade de uma confidência, as sílabas a queimarem-lhe os lábios, confessou-lhe um dia, “amo-te, quase deixei de existir”. “Sonho-te, quando ansiava ser um sonho teu”. Ele tão pálido, com uns olhos tão verdes e translúcidos, cuja simples presença faz descer a temperatura do ar, não quis aquele amor que se anichava nele. A perfeição e infinito assustam mais que monstros marinhos. O mistério do silêncio dele? Não era a profundidade na quietude do lago, nem o viver por extenso, mas a banalidade.

O que lhe dói no pulso não é a pulseira de prata comprada por impulso em Varsóvia, nem a distante lembrança daquele amor, o que lhe atormenta o sono é a banalidade. Tivesse ficado apenas com o instante antes do beijo.

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