Que sabemos nós da guerra?

Os
Os “meus” meninos sudaneses

No meu caderninho de palavras emprestadas há uma em quimbundo que me fascina: “muxima” que significa coração. O que nos faz ser pessoa, não é um passaporte ou uma identificação, mas o que não cabe dentro dele.

Diz o Mia Couto que “quem viveu pregado a um só chão não sabe sonhar outros lugares”, nunca tanto como nos últimos dias pensei nestas palavras. Dias onde o medo e o preconceito toldam as mentes.

Nas sociedades confortáveis o inferno são sempre os outros e dos outros. Podemos escrever milhares de caracteres sobre vítimas e torcionários, e continuaremos a não perceber de que falamos quando falamos de guerra.

Tenho a noção da presença da guerra no meu quotidiano desde sempre. A guerra esteve como pano de fundo na minha infância e acompanhou-me através de fragmentos de histórias, que podiam ser ficções, porém eram bem reais. Em adulta visitei-a mais ao seu cortejo fúnebre: as marcas das balas, os blindados, o cheiro da morte e o desespero no olhar dos vivos. Não sei como trazer para o papel a infinita complexidade daquele quotidiano. E a infinita dor.

Recordo uma frase que li  numa reportagem sobre a Tchechénia, “as flores são tão bonitas aqui na Primavera”. Saiu da boca de um soldado menino à porta de um hospital improvisado  onde se amputavam membros sem anestesia. Pisei alguns destes hospitais.

Nestes infernos há vidas que são ensaios sobre a coragem excepcional, sobre a não desistência. Durante os dias em que estive no Sudão do Sul os jornalistas de que fui mentora contaram-me a sua história. Partilho apenas a de H. como exemplo. O pai juntou-se aos rebeldes abandonando a família durante a guerra. A mãe, que antes trabalhava na Universidade de Juba, refugiou-se em Cartoum com as filhas. Para sobreviver fabricava alcool, proibido pela sharia, porém muito procurado. Um dia  H. foi apanhada pela polícia a vender alcool e condenada a 20 chicotadas. Tinha 14 anos. As cicatrizes rasgam-lhe as costas. Toquei-lhes a muito custo porque ela me pediu. ” Sente como a guerra passou por mim”. Esta mulher esteve dias sem saber dos dois filhos durante os combates em Juba em 2013. Para sairem de casa de avó onde se refugiaram os meninos foram obrigados pelos soldados a passar sobre os mortos que já apodreciam no chão. São fragmentos suficientes para vos pintar uma aguarela ténue do sofrimento. “Tanta é a morte/que nem os rostos se conhecem, lado a lado,/e os pedaços de corpo estão por ali como tábuas sem uso./Oh, os dedos com alianças perdidos na lama…/Os olhos que já não pestanejam com a poeira…/As bocas de recados perdidos…”

Quando olho para os que nos chegam a Europa, vindos países mais-que-imperfeitos, vejo pessoas: Pessoas profundamente sós. A solidão pode ser uma circunstância ou uma permanência. Peço a voz de novo a Mia Couto. “Só há um modo de escapar de um lugar: é sairmos de nós. Só há um modo de sairmos de nós: é amarmos alguém”.

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