Balada dos refugiados 

Olho para o Atlas e o nome está lá
O país que tivemos não está
Tudo o que nos prendera, se quebrou, em pavor se desfez.
Não podemos regressar, não temos lugar.

Olho para o mapa e o nome está lá
A cidade que foi nossa não está
No pátio da igreja havia flores amarelas.
O templo é uma casa de cinza. Ninguém fale em primavera,
não pode regressar, não tem lugar

Olho para o passaporte e o nome está lá
O sorriso era nosso não está
Apenas a fotografia a fingir que a vida não se dá por derrotada.
De que vale o passaporte se nos chamam clandestinos.
Não podemos regressar, não temos lugar.

Olho para o barco e o nome está lá
Chama-se medo e o medo está
Como deixar-vos minha terra calcinada, quando a praia que se aproxima, de repente nos escapa.
Há-de vir uma onda que evoque como estamos sós. Senhores aparentes de um barco abandonado.
Aonde iremos ter? Conseguiremos chegar ?
Não podemos regressar, não temos lugar.

Olho para a praia e o nome está lá
Chama-se ilusão e entre tímidas aspas a morte está.
De corpos esgotados a areia manchada. O grito é inútil, um imenso nada.
Os que chegaram não podem regressar, mas não têm ainda lugar.

Helena Ferro de Gouveia

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