Crónicas sul-sudanesas III (num dia muito estranho)

   
   
Falta uma hora para que caia a tarde e o céu encobriu-se avisando o regresso da chuva, súbita como um assalto. Juba é o nome que a cidade tem no mapa, mas onde cheguei eu? Retenho as fotografias que não cheguei a tirar, porque na paisagem irreal de Juba as câmaras são objectos proscritos. As que tirei foram imagens furtivas com o telemóvel da janela do carro ou do riquechó.

A realidade carece. Da minha varanda vejo um camião da UN abandonado, despojo de guerra para mim, brinquedo para uns sete ou oito rapazes descalços, fumando cigarros. Naquele camião branco cabe a história do mais recente país do mundo e decanta-se em superlativos, a mais longa guerra civil do continente africano, uma das mais mortíferas. Folheie-se o catálogo de horrores da guerra estão lá todos. Por detrás do camião pequenas casas, instalações de chapa de zinco e telhado de colmo, roupa que seca, lixo. Há uma “shop” com homens sentados em cadeiras de plástico.Em Juba se há que sobra é o tempo.

Notável: reina a ordem no meio do caos. Combate-se em todo o país, desde Dezembro de 2013 foram violados sete cessar fogo e o processo de paz está num impasse. Na capital a vida persegue obstinadamente a normalidade, bebe-se chá na berma da estrada, os Boda-Boda (moto táxis) desviam-se os buracos das ruas de terra vermelha e antecipam os lagos efémeros que a chuva da noite anterior criou. Nas ruas asfaltadas há semáforos que funcionam e são respeitados. Mulheres de batas amarelas varrem o lixo das bermas. crianças, as privilegiadas,  de uniformes verdes e brancos caminham para a escola.

Contra o bom senso que me tentaram incutir percorri a cidade a pé, fui de riquechó aos extraordinários mercados, à lixeira, acompanhei os jornalistas de que sou mentora nas suas reportagens. Alguns têm o optimismo próprio da juventude, optimismo que não os desertou, mesmo com biografias inimagináveis.Por quem me tomo eu para vir para aqui falar de violações dos direitos humanos?

É estranho e comovente. Em todo o lado fui saudada com gentileza, apertaram-me a mão, disseram-me em árabe “a paz esteja contigo”, ofereceram-me um lugar para sentar e sorriram. Filas de dentes muito brancos em rostos sublimes que podiam ser estátuas. A paz esteja com eles.

Como é que sobrevive nestes lugares de fim de mundo? Agarrando-se a truques defensivos. O medo exorciza-se com rotinas, partilha-se. Está lá, mas pode iludir-se o trago amargo. No meu hotel, os “internacionais” dançam salsa. Salsa? Nos anos oitenta cerca de seiscentos sul sudaneses foram enviados para Cuba, quando regressaram após a independência do Sudão do Sul tornaram-se na elite do pais, abriram várias “Havanas” (bares, “supermercados”). Com eles vieram a comida e os, nesta geografia, improváveis ritmos.

Até domingo estou confinada à gaiola dourada do Hotel. Quarta-feira um jovem jornalista sul-sudanês foi assassinado quando regressava a casa, é o sétimo este ano.Em terras de fim de mundo as vidas evaporam-se sozinhas. No início do mês dois jornais e uma rádio independente foram forçados a fechar portas. Como se não fosse suficiente o presidente ameaçou de morte todos os jornalistas críticos.País novo, velhos hábitos.Durante todo o dia chegaram-me das Alemanha e da embaixada alemã em Juba emails com análises de risco e alertas de segurança. O perigo é concreto para jornalistas e ninguém sabe muito bem o que se passará amanhã. Há manifestações marcadas por todo país contra o acordo de Paz assinado unilateralmente pelos rebeldes e que o presidente está a “examinar”. Na enxurrada de emails um fez-me sorrir, “não se esqueça que o prazo para encomendar os postais de Natal da empresa é até ao final do mês”.

“Não possuindo mais/entre Céu e a Terra que/ a minha memória, que este tempo…” restam-me os livros que trouxe em abundância. Proibiram-me o Facebook e as redes sociais. Obrigam-me a um silêncio-mais-que-imperfeito.

PS- Na página do blog no Facebook estão mais fotografias.


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