Crónicas sudanesas II ( no dia do nascimento da minha neta)

   
 Sábado pela manhã coloquei no pulso direito uma pulseira negra feita de cordões de suspensão de paraquedas, uma corda de sobrevivência. Será o único acessório a que me permitirei nas próximas semanas, transmite-me uma sensação de tranquilidade e convoca memórias que amenizam a solidão de milhares de quilómetros.
Acordei com a ideia de escrever uma crónica sobre o medo, esse sentimento poderoso que esteriliza os abraços ou nos leva a ultrapassar umbrais aquém do passo, as fronteiras de nós. Trauteio um samba de Vinicius. “O perigo existe, faz parte do jogo/Mas não fique triste, que viver é fogo/Veja se resiste, comece de novo”. Mudei de ideias quanto à crónica. 
Entre todos os lugares possíveis escrevo , de madrugada, no café do Terminal 1 do aeroporto da capital etíope. Rodeada de mulheres etíopes belíssimas de trajos amarelos açafrão, vermelhos, azul luminoso, que contrastam com o negro integral das sudanesas. 

Como todos os aeroportos africanos é um lugar ruidoso, quase insuportável para quem procura as sílabas certas para pronunciar um nome. O nome da minha neta chegou à vida este sábado sem que eu pudesse debruçar o meu rosto sobre o dela. 

Eu conto porque as palavras exorcizam. Estava a caminho do aeroporto com as minhas filhas quando a Joana entrou em trabalho de parto. Voltei para casa, tratei do necessário, fiz-lhe uma festa no cabelo e fechei a porta atrás de mim. 

Não preciso de dizer como me sentia e sinto. Fosse o Sudão do Sul um país normal o voo seria adiado. Não o é. A minha África e a profissão que adoro cobra-me tributos altos. 

Graças à maravilha que é o Facebook fui acompanhando o nascimento da Mafalda, falei com a jovem mãe e recebi a ternura de tantos. 
Para Mafalda que nasceu no dia de Santa Maria e da independência da Índia guardo a minha pulseira de pára-quedista e histórias sobre medo e superação para contar. Sei que outras avós oferecem pulseiras de ouro, acredito os tesouros nem sempre são os mais óbvios. 

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9 thoughts on “Crónicas sudanesas II ( no dia do nascimento da minha neta)

  1. Ola helena
    Em primeiro lugar parabens pelo nascimento da sua neta. E tambem a sua filha pela coragem demonstrada que concerteza herdou da mae. E interessante ver como as coisas evoluem, pois conhecemos as suas filhas pelas suas cronicas e agora uma ja e mae. Parabens a tia tb que nao devemos esquecer.
    Hoje a helena tirou me uma duvida, afinal ss mulheres tambem gostam dessas pulseiras. Eu estava com vontade de comprar uma e por essa duvida ainda nao tinha comprado. Em relacao a viagem muito sucesso e sorte.
    Rui

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  2. Helena,
    adorei le-la aqui! Como tal desejo muita Felicidade à Netinha, à Mãe e ao Pai da Netinha, à Avó e ao Avo da Netinha e a toda a Família.
    P A R A B É N S!

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  3. olá Helena. muitos mosquitos?
    bem, não era nada disto que eu queria perguntar 🙂
    o que queria mesmo saber era como está a avó da Mafalda. (que belo estatuto). não pergunto por fotos da bébé porque sou absolutamente contra a sua circulação na net.
    é aí, como é a realidade face às expectativas?
    bem, tinha um monte de perguntas mas não quero maçar.
    até breve!

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