Crónicas sudanesas I

Foto do New York Times  (as minhas estarão disponíveis em breve)
Foto do New York Times
(as minhas estarão disponíveis em breve)

Sento-me sobre a mesa em posição de Lotus. Dói-me o braço da vacina da véspera. Sobre a mesa estende-se o enorme mapa Sudão do Sul. Chão traiçoeiro, nascido da divisão do orgulhoso bilad as sudan, “terra dos negros”, o Sudão.

Há décadas que o Sudão está sob escrutínio. Inevitabilidade que tem muitas razões. Guerra, atrocidades, milícias islâmicas, violações, crianças soldado, fome, mais de dois milhões de mortos. As cores do país camaleão declinam-se em dor, medo, raiva, trauma. Tem outras também.

Serão poucos os que conhecem a milenar civilização sudanesa que rivaliza com a egípcia na sua importância, ou que ouviram falar nos faraós negros, nas pirâmides de Meroé, ou que o império meroíta foi governado no século I a.C por várias mulheres: Naytal, Amanirenas e Amanishakheto. “Afinal, quantos lados tem o mundo no parecer dos olhos do camaleão?”.

Da outra mesa o responsável pela minha segurança declina um catálogo de horrores, o nível de ameaça passou de high para extreme. Revemos procedimentos de fuga, marcamos a única estrada que levaria a um país vizinho no caso da situação se complicar em Juba. Quem está familiarizado com a geografia africana não ilude o nervosismo.

Costuramos a segurança com os fios do possível. E o possível é um mapa, uma mochila, um telefone por satélite, dólares enrolados com um elástico e um olhar capaz de traduzir silêncios.

É perturbador preencher um formulário onde damos respostas às perguntas que nos fariam para provar a nossa identidade em caso de rapto, ou descrever as nossas cicatrizes e sinais para a identificação do cadáver. Só que a vida é risco, não tem garantia. O que quer de nós é apenas coragem.

Há um ano e meio que o Sudão do Sul, o mais recente pais do mundo, mergulhou numa sangrenta guerra civil. A coligação multitribal tenta na capital etíope um acordo até 17 de Agosto. Em lugares onde os combates – entre tropas governamentais, dissidentes, grupos étnicos , o xadrez é complexo – são mais intensos, não há tempo para contar os corpos. Novas atrocidades repetem-se dia a após dia.  Conto-vos uma história, passada há poucas semanas, que merece ser mais que uma nota de rodapé num relatório. É muito mais do que a sanidade é capaz de suportar.  “Um homem encostou-me a arma à nuca e disse : “vê como vamos violar a tua filha” . Fizeram-me sentar no chão à distância de talvez um metro do local onde violaram a minha filha e bateram-me repetidamente com um pau. Quando acabaram, violaram a minha filha mais velha e em seguida queimaram o nosso tukul (habitação tradicional sudanesa). Depois arrastaram-na, seguraram-na e mergulharam-na no fogo. Quando ela começou a arder deixaram-na em paz. Ela ficou demasiado ferida. Tivemos que a deixar para trás quando fugimos”.

Não se pode lutar com canivete contra um leopardo, dizem-me os cínicos. Permito-me discordar. O que me traz a Juba não é a fragilidade exposta, mas as piores deformações que são as invisíveis.

Mesmo num país em guerra há retalhos de sol. Os jornalistas sul-sudaneses de que serei mentora são antigas crianças soldadas ou pessoas que cresceram em campos de refugiados. Entenderam a grande lição que a paz só é possível quando se está do lado da esperança e que a rádio, a palavra é poderosa, contém o germe da vida.

Esta é a grandeza que Juba, que o Sudão do Sul tem para me dar. É aqui que se pode alcançar a essência a matéria de que somos feitos.

PS- Parto sem conhecer a minha neta e isso põe-me dois oceanos agitados no lugar dos olhos.

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