Crónica de uma avó para ser

Quando nasce um novo membro da família é comum que amigos e familiares lhe procurem as semelhanças. “O nariz é da avó”,  “os olhos são do pai” e por aí em diante. Por vezes as pessoas são capazes de encontrar as parecenças mais inesperadas. Um casal meu conhecido, ambos alemães, louros e de olhos claros, adoptou dois irmãos equatorianos, e por mais do que uma vez na rua ouviu dizer ” vê-se mesmo que são vossos filhos”. Ou não tivesse o amor uma força superior à da genética. 

Quando as minhas filhas nasceram lembro-me de ficar furiosa interiormente quando me diziam “é parecida com a tia” ou “é a carinha do pai”. Creio que nunca experimentei tanta comoção e tanta glória como nos minutos que se seguiram ao parto quando as pousaram sobre a minha pele, as pude olhar no rosto e senti-las, de forma egoísta, como um pedaço de mim. Depois afeiçoei-me à ideia de que cada uma delas é uma obra inédita, única, embora num ou noutro traço haja plágio do meu olhar ou do meu sorriso.

Tudo isto vem a propósito da minha minha neta que está para nascer. Se um filho de alguma forma nos devolve a inocência perante a vida e de alguma forma a eternidade,  nada há de mais próximo da eternidade do que a infância. Um neto, por chegar numa fase em que já estamos “calejados”,  é como a lua azul, algo raro que ilumina a noite mais do que o calendário habitualmente dita. 

Agora que a barriga da minha filha cresceu prodigiosamente, redonda e macia, dou por mim a pensar como será a Mafalda ( nome que foi a minha alcunha de infância e me acompanhou na juventude) e se terá parecenças com a avó.

Como é que uma Mami se metamorfoseia em avó? Qual é a química misteriosa capaz de transformar uma pessoa responsável, ponderada, numa pessoa orgulhosamente anarca? Irei eu permitir coisas à minha neta que não permiti às minhas filhas? (hmmmmm pensando bem como a tia só tem 12 anos é capaz de não ser uma das minhas melhores ideias). Estarei preparada para voltar a responder a perguntas como “onde começa o infinito?”, ” se o pai de Jesus é Deus o São José é parvo?”, “quem prende os polícias?”. 

As vezes tenho a sensação que à medida que as minhas filhas crescem eu me vou tornando mais menina, descobrindo mais encanto nas histórias, estou mais disponível para a surpresa e mais atenta aos enigmas que nos rodeiam. Ainda me vão ver de joelhos na estrada a espreitar por debaixo de um carro, rodeada de crianças, para observar um insecto raro (espera aí…isto já aconteceu numa festa em Davis, na Califórnia, graças a um amigo entemólogo). Oh céus.


4 thoughts on “Crónica de uma avó para ser

  1. O amor faz coisas !!!! …..acredito mesmo que as pessoas vejam semelhança entre o casal de amigos teu e os peruanos. Porque o mesmo acontece com o meu irmão adotivo: Ele é a cara da minha mãe 😀

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