Onde é que eu errei? 

Sempre soube que me queria tornar mãe. Digo tornar porque a maternidade parte de um acto biológico, mas é sobretudo um ocupar o lugar, um contínuo movimento onde nada é garantido, não há rede, nada é simples ou fácil. 
Espera-se que a mãe seja como aqueles equilibristas de pratos no circo, que aceleram o ritmo delirantemente e apanham pratos vindos da esquerda e da direita, de trás e da frente, sem se desequilibrar, nem os pratos estremecerem. 
Nenhum manual prepara uma mãe para a montanha russa de sentimentos, do amor que ilumina como um relâmpago poderoso acende a noite escura, ao medo-adamastor que algo os perturbe, fira ou desiluda. Ou para as escolhas que os filhos fazem.
Quando um filho toma uma decisão que aos nossos olhos é menos acertada ou que é um murro no estômago a pergunta surge mais rápida que uma bala: onde é que eu errei?
Vou partilhar uma história pessoal, com o consentimento da minha filha no equinócio entre a adolescência e a idade adulta. 
Quando a Joana nasceu a casa encheu-se de riso e suavidade. Ria com gargalhadas claras como a água, tão contagiantes que dela diziam ser um raio de sol.
À sua roda no Kindergarten os meninos e as meninas sentiam-se bem. Era princesa entre piratas. Em casa, trepava as escadas da cama como se fossem degraus de uma fortaleza de brincar e punha-se a cantar. Tinha (tem) uma voz luminosa, como se a “água ou o vidro se rissem”. Num instante os legos transformavam-se numa orquestra. Adorava a música e adormecia embalada por canções antigas.Quando brincava às profissões dizia querer ser luthier. Depois piloto ou médica.

Olhava para vida cheia de curiosidade, respirando o seu perfume. “Mami, há tantas coisas que eu não sei. Leva-me a vê-las”. Lembro-me dela aos cinco anos a desenhar, tranquilamente, em conferências de imprensa, quando falhava a baby-sitter. Conhecia pelo nome políticos e presidentes e adorava o jogo das capitais. Queria devorar o mundo. Aninhava-se nos meus braços quando trovejava. Juntas éramos onda e areia. 
De repente cresceu, começou a viajar sozinha, a falar em inglês com a mãe no Facebook, a namorar. Manteve-se uma aluna brilhante e permaneceu cumplicidade com a mãe. Tanta que me telefonou a meio da noite (da minha noite) para Cruzeiro do Sul, cidadezinha bem no fim do Brasil, para me contar entre o assustada e o feliz que tinha perdido a virgindade. 
Decorridos meses sobre esse telefonema – e da minha estupefacção que chorei no ombro de um amigo providencial – na véspera de Natal, a Joana conta-me que está grávida. A contracepção falhou e aos 18 anos ela quer ter aquele filho, adiar a faculdade de medicina e tornar-se mãe. Eu, egoísta, pensei num primeiro momento: “onde é que eu errei, onde falhei”. Aos 43 anos a ideia de ser avó ainda não me tinha ocupado os dias.
Depois abracei-a com muita força sabendo-a com mais medo do que eu.
2014 foi o ano mais difícil da minha vida. Perdi o meu pai, a mãe teve dois AVC. Há horas que magoam, outras horas virão. 2014 terminou com a graça da maternidade da minha princesa. 
Eu não errei, nem ela. Uma vida nova nunca é um erro, mas uma possibilidade.
Daqui a duas semanas serei avó e estou profundamente feliz. 

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9 thoughts on “Onde é que eu errei? 

  1. Parabéns, eu foi testemunha da enorme alegria que invadiu os corações dos nossos sogros com a notícia do nascimento da primeira neta.
    Muitas felicidades e tudo de bom para toda a família.

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  2. Maravilhoso, a vinda de um ser humano amado é sempre maravilhoso. Obrigada pela partilha (e deve ter feito tudo certo com a sua filha, pois a decisão, a vontade, o desejo de assumir esse bebé e dar-lhe uma oportunidade é um gesto maduro e de grande beleza.

    Desejo as maiores felicidades, vovó 🙂

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